
The Eraser, o primeiro disco de Thom Yorke, cujo lançamento oficial estava previsto para 10 de julho, já circula freneticamente em fóruns, blogs e pastas do soulseek. Pela receptividade do publico, renderá ao vocalista e compositor do Radiohead uma boa perspectiva de carreira solo, se for este o seu intuito.
Mas parece que não é. Nem tinha razão para ser. Há 15 anos que Thom Yorke, junto ao Radiohead, opera o organismo do pop com raros arrojo experimental e liberdade autoral. Não cabe aqui, por isso, apenas a indagação de que estaria buscando um escape artístico. The Eraser soa como uma expedição aos sons futuros do Radiohead, um laboratório de beats, blips & blops eletrônicos.
As músicas estão despidas das habituais texturas do Radiohead, mas compostas com as mesmas complexidades rítmicas e harmônicas. É Radiohead sem Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin Greenwood e Phil Selway. Um atestado do tamanho de Thom Yorke na banda.
Para produzir The Eraser Thom Yorke criou um ambiente familiar: o produtor convocado foi Nigel Godrich, considerado o sexto integrante do Radiohead. Stanley Donwood, autor das capas do ep My Iron Lung (1994) e do CD Amnesiac (2001) foi o escolhido para dar cara gráfica ao The Eraser. Mais uma pista de que a intenção não é de rupturas com o universo Radiohead.
A produção valorizou minúcias na restrita atmosfera instrumental criada nas nove músicas do disco. Elas pulsam com beats eletônicos, respiram por camadas sintetizadas e suspiram com a força dramática de Thom Yorke, que processa todos os sons e toca todos os instrumentos.
O tom confessional e uma visão de mundo cáustica, digressora, mantém o canal com o Radiohead. É indissociável. Mesmo assim, as músicas divergem por serem minimalistas e essencialmente eletrônicas. A sugestão ao minimalismo, porém, não significa linearidade e aridez.
Há muito de sinuoso e prolífico em The Eraser. Beats que não se configuram em apelo dançante. Arranjos que não se conformam em serem cenários do mundo melancólico de Thom Yorke. O análogo dialoga com o digital pelos ritmos. Assim o piano se oferece como contraponto rítmico na faixa The Eraser enquanto Thom avisa: “The more you try to erase me/ The more that I appear”. Será um recado?
As confissões existenciais vão além das letras e os ritmos afastam a melancolia da inércia. Em Clock Thom compõe contratempos colocando suspiros, gemidos, sonoridades vocais em loop com noises e percussões eletrônicas. Já em Black Swan um desdobramento de Paranoid Android ecoa nos compassos mais trip do que hop. “It´s fucked up”, concordo, Thom. As experimentações rítmicas culminam com Cymbal Rush, a última do álbum, repleta de ruídos de jogos eletrônicos e sobreposições de sintetizadores e guitarras ruidosas.
É, de certa forma, uma abordagem futurista que se ouve sutilmente aqui, das viradas das batidas eletrônicas às intervenções análogas do baixo e da guitarra. Mas nada que impeça um olhar para o passado, mais precisamente para os movimentos frios e soturnos da cold wave dos anos 80.
A influência encharca o mundo sombrio de Thom Yorke com sintetizadores espaciais que caberiam perfeitamente nas ambiências criadas por Brian Eno no álbum Low, de David Bowie. Uma inédita entonação vocal grave “convoca” Ian Curtis (Joy Division) em Skip Divided. Ao melhor estilo Peter Hook nos tempos do Joy Division, o baixo conduz a onda deprê para And It Rained All Night. Um outro riff de baixo introduz a melodia luminosa da otimista Harrowdown Hill: “I’m coming home to make it all right/ So dry your eyes”. É a mais, digamos, pop do disco.
The Eraser também não é apenas uma viagem ao planeta Thom Yorke, muito menos um apanhado de outtakes desprezados pelo Radiohead. Prefiro imaginar como um rascunho do que pode vir a ser o próximo disco da banda. Caso seja, o Radiohead estará refundando a IDM (Inteligent Dance Music), complementando os esforços das vanguardas musicais progressistas, chamando para a dança Bjork, Aphex Twin e Four Tet.







Muito boa sua crítica sobre o album do thom.Gostei do modo que analisa e compara com movimentos eletronicos inteligentes de vanguarda que ja existiram.Tambem acredito na ipótese de rabiscos de um novo trabalho do radiohead,Porque nao!?
Gosto dessa nova atimosfera da banda que vem se desdobrando
desde o ok computer e que teve em acensão em discos como o kid A, e o amnesiac.Bem,eu fiz uma analise pessoal do eraser,algo no minimo curioso.Bem,eu acredito que o thom tenha bebido da nova musica eletronica brasileira,pra ser ate mais especifico,a musica regional da região nordeste.
Há,Bnadas experimentias e dj’s que produzem bits e samplers apartir da ideia da batida de musicas como o baião e outros estilos musicais dessa mesma região.Trazendo isso pra uma atimosfera moderna,plastica, minimal e ate experimental,porque nao!
Bem,parece ser uma analise um tanto que ousada de minha parte,mas musicas como: “Analyse” com aquela batida que remete a uma zabumba, e “the clock” com aquele loop de batida
que tambem faz referencia a batidas regionais nordestinas…
e aquela vocalização mormurada…oque mais que me chamou atenção,e um loop de viola que aparece durante a musica toda,aquilo e muito os primeiros discos do zé ramalho,e daquela geraçao toda que renovou a musica regional nordestina.
Bem,pra ir mais longe em meu delírio que o thom andou bebendo em aguas de influencia nordestina,vejamos a arte da capa do disco,criada pelo parceiro do radiohead,o Donwood.
Bem,ela parece ou nao parece uma xilogravura?
ela remete muito a capa de livretos de cordel….
bem,pode ser uma pista!
Obrigado!
Olha só que bela leirura você fez. Parabéns. Teve uma sensibilidade rara para identificar estes elementos que agora, para mim, ficaram bem sugestivos, se não evidentes, com as referências citadas. Muito bom.