Que bolão, Ken Loach!

Cena do filme À Procura de Eric, de Ken Loach

Cena do filme À Procura de Eric, de Ken Loach

Ken Loach, seu velho e bom comuna, que peça você pregou nos velhos camaradas: dirigir um filme que aborda o ópio do povo! Que boa forma de revisitar os dizeres essenciais do velho Marx sobre o futebol. Afinal, “o futebol é o suspiro do oprimido, o coração de um mundo sem coração e a alma dos momentos sem alma. É o ópio do povo”.

Chega aí. Acende um. Bora prosear sobre o ótimo À Procura de Eric (“Looking for Eric”).

Olha, vou te contar, que sacada essa de recolocar um homem psicologicamente arruinado de volta ao campo da vida a partir da relação (imaginária) dele com seu maior ídolo do futebol.

E que ídolo! O controverso Eric “King” Cantona. Foi licença poética (ou cinematográfica) das melhores escalar o próprio craque do Manchester United nos anos 90 para atuar como ele mesmo. Um baita reforço. Pois o ex-jogador francês mostrou que tem habilidade no campo das artes cênicas. Dentro das quatro linhas, então… As cenas das jogadas e gols dele quando atuou no Man U são demais. Como pode ele nunca ter sido convocado para a Seleção Francesa?

Só sei é que no filme rolaram umas tabelinhas interessantes, conceitualmente falando, com Woody Allen. Principalmente nos diálogos imaginários entre o Eric Bishop (Steve Evets), o carteiro torcedor do Manchester, e o Eric jogador. Foram cenas de rara felicidade e cheias de contrastes. Divertidas ao mesmo tempo que pertubadoras, por exporem a angústia de um homem que sucumbiu aos seus traumas existenciais e de relacionamentos, entregue à solidão e às voltas com o envolvimento dos adolescentes que cria com uma gangue criminosa.

Também percebi entrosamento com o teu companheiro de ataque na seleção dos melhores cineastas britânicos. Sim, o Mike Leigh, ora. Quem mais poderia ser? Só vocês têm esse fino olhar para a classe operária inglesa. Mas de futebol você entende mais. Tive certeza disso ao final do filme. Só quem conhece a arte do drible consegue aliar duas paixões que movem nossas vidas.

Sabemos que dentro e fora das quatro linhas a tabelinha entre futebol e política social dá samba e cachaça. Mas estava precisando de um bom filme. E você pegou a bola quicando de jeito. Foi como um chute certeiro, no ângulo, o alerta para a elitização do futebol. Surtiu efeito a marcação sob pressão imposta sobre o mercantilismo do futebol que inibe as tradições e história dos clubes – destacado no filme com o acirrado debate sobre a descaracterização do uniforme do Man U.

É isso, caro Ken, futebol pode ser o ópio do povo, mas a torcida unida jamais será vencida. Permita-me o trocadilho com os bordões. Sabe, me emocionei na cena em que Eric Cantona dá mais valor ao passe do que ao gol para ilustrar a força da coletividade. E que passe, ainda mais somado a um iverossímel solo de trompete (que aprendeu a tocar, influenciado pela obra de Miles Davis, durante os nove meses em que esteve afastado dos gramados, em 1995, punido por ter agredido um torcedor). Uma cena de cunho simbólico que transporta o sonho para o cotidiano. Emblemática.

A grandiosidade simbólica ganha corpo mesmo nas cenas finais do filme. A invasão dos Cantonas mascarados como parábola para ilustrar o poder da ação coletiva foi de lavar a alma, como um gol aos 49′ do segundo tempo. Tanto quanto a entrevista de Cantona após o jogo, digo, filme, na qual ele cita a mais famosa dentre suas excêntricas declarações: a Parábola das Gaivotas (“Quando as gaivotas seguem o barco, é porque eles acreditam que sardinhas serão jogadas no mar”), que serviu de inspiração para o roteirista Paul Laverty criar as frases de encorajamento de Cantona para Bishop.

Tenho certeza de que a galera das arquibancadas (tá bom, das poltronas dos cinemas), como na música do velho Jorge Ben, vai agradecer e cantar: Ken Loach maravilha, nós gostamos de você. Hehe.

Mas é sim, camarada, um filme muito massa esse À Procura de Eric. Um drama tragicômico com abordagem psicosocial e jeitão de fábula sem ranço moralista que acerta as contas do cinema com o futebol. Um filme com final feliz que faltava na sua filmografia. Não nos faz refletir tanto sobre as mazelas da vida como os seus antecessores “Ventos da Liberdade” (“The Wind that Shakes the Barley”) e “Mundo Livre” (It’s a Free World”), mas nos enche de alegria e esperança, mesmo que passageiras, assim como um gol e uma vitória do time do coração ou qualquer outra necessária sensação de torpor.

É, caro Ken, À Procura de Eric termina nos levando a crer que futebol é ópio e cura do povo. Um filme que leva o número da camisa de Pelé como nota.

Né não? Diz aí

Ken Loach e Eric Cantona

Trailer do filme À Procura de Eric

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