Nuvem Cigana

Nuvem Cigana - Poesia & Delírio dos anos 70

Nuvem Cigana - Poesia & Delírio dos anos 70

“Poesia é sair da música para se esgotar no impossível” – Bernardo Vilhena.

Inspirado pela utopia coletiva hippie recriada por Ang Lee no filme Aconteceu em Woodstock, coloco na ponta da língua uma dose literal de poesia e delírio via Nuvem Cigana, coletivo anarco-literário integrado pelos poetas Chacal, Charles Peixoto, Ronaldo Santos e Bernardo Vilhena, marco da contracultura brasileira dos anos 70.

Nuvem Cigana – Poesia & Delírio no Rio dos anos 70, lançado em 2007 pela Azougue Editorial, de Sergio Cohn, editor da revista Azougue, promove a revisita aos tempos de atuação do grupo marginal de poetas cariocas com uma edição rica em fotos da época, cartazes, cópia de textos mimeografados e vasta antologia poética dos autores do coletivo. Transporta o leitor para um Rio de Janeiro que confabulava mais com os movimentos de vanguarda.

Como salienta Sergio Cohn na introdução do livro, a Nuvem Cigana influenciou a poesia, principalmente a falada, teatro, MPB e rock brasileiro dos anos 80. Isso a partir de um núcleo de produção de cultura marginal e de resistência, munida de humor e ideal libertário-anarquista, aos atentados à liberdade promovidos pela ditadura militar durante os anos de chumbo.

A ação do Nuvem Cigana se dava através de leituras, publicação de livros independentes (na base do mimeógrafo) distribuidos de mão em mão durante as Artimanhas, eventos marcados pela diversidade de formas de expressão artística e intervenções multimídias – os famosos happenings, influência direta dos Beatniks. Uma experiência total, tal e qual os testes de ácido de Ken Kesey, envolvendo os sentidos, palavras, sons, música, delírios e poesias.

Ao contrário do que ocorreu no Modernismo, momento de afirmação da poesia escrita porém moldada às linguagens vanguardistas das artes plásticas e música erudita, a Nuvem Cigana reunia prosa, poesia, teatro e música popular numa estrutura narrativa potencialmente discursiva que marcou a poesia moderna falada nacional. “O Brasil conheceu a palavra propriamente dita”, como sentenciou Chacal.

Segundo Sergio Cohn, “a Nuvem Cigana, através de suas Artimanhas, realizou de maneira sistemática, pela primeira vez no Brasil, a poesia moderna falada. Embora exista uma tradição de poesia oral popular (o repente, por exemplo), todo o nosso modernismo foi calcado na palavra escrita, por mais que incorpore uma linguagem coloquial”.

Reverente ao desbunde oral da trupe, o autor de Nuvem Cigana – Poesia & Delírio no Rio dos anos 70 adotou a fórmula utilizada por Legs McNeil e Gillian MacCain no livro Mate-me Por Favor, deixando os depoimentos fluírem sem intervenção de um narrador e com lógica de capítulos temáticos. Material resultante de 38 horas de entrevistas.

Os relatos passam por casos que revelam como os protagonistas se relacionavam com a época, suas motivações e inspirações, muitas delas movidas a base de ingredientes lisérgicos. Como a estória contada por Ronaldo Santos que originou o batismo Nuvem Cigana, uma nuvem de fato vista por ele nos céus de Ipanema, e que também inspirou a letra da clássica canção dos mineiros do Clube da Esquina que leva o nome do movimento cultural carioca.

“Nuvem Cigana”, a música, é uma pepita psicodélica que ilustra bem a influência da Nuvem Cigana na MPB. Até mais representativa do que no rock nacional. Uma convicção justificada pela lembrança do sucesso “Menina Veneno”, composto pelo Nuvem Cigana Bernardo Vilhena e o cantor Ritchie. Ilustra a diluição dos ideais da Nuvem Cigana no cenário musical dos anos 80.

Clube da Esquina, Nuvem Cigana

Artimanhas da Nuvem Cigana

Uma “artimanha” do “xamã-beatnik” Chacal

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3 comentários

  1. Caique Franchetto says:

    Mais sobre a "Nuvem Cigana", esta maravilha do séc XX brasileiro no site http://www.impop.com.br/nuvem-cigana/

  2. Mais sobre a "Nuvem Cigana", esta maravilha do séc XX brasileiro no site http://www.impop.com.br/nuvem-cigana/

  3. Nuvem Cigana, coletivo anarco-literário integrado pelos poetas Chacal, Charles Peixoto, Ronaldo Santos e outros. http://t.co/tgrKRKz @impop

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