A nudez como estética contracultural está de volta. É o recado dado pelos The Flaming Lips e Yeasayer nos videoclipes de “Watching the Planets” e “Ambling Alp”, experiências audiovisuais transgressoras. Peças de contracultura pop, desafiam os limites que o entretenimento de mercado impõe às artes contemporâneas. Isso com uma linguagem que sublinha a força da sociedade em rede, seus códigos abertos, ferramentas de produção e divulgação espontânea.
É tempo de nos despirmos do fundamentalismo do consumo. Que o façamos com arte! Afinal, arte, nudez e contracultura se combinam.
Entendida na história da arte como referencia de estética greco-romana, a nudez, nos anos 60, manifestou revoluções da época, revestida de atitude crítica e politicamente engajada. Corpos nus como panfletos, discurso, combate e protesto contra a guerra do Vietnã, Apartheid na África do Sul, doutrinas conservadoras e toda espécie de preconceito.
Um contexto social e político de contestação alicerçado pela expressão artística: a contracultura pop. O gaypower ganhou força e símbolo com os torsos nus masculinos pintados por Andy Warhol. Jimi Hendrix elaborou uma ode ao nu artístico e ao feminismo com as mulheres elétricas nuas e coloridas na capa do seminal “Electric Ladyland”, colocando de vez o rock psicodélico na luta contra o conservadorismo. A nudez do elenco da peça Hair levou a Broadway a aplaudir o lema “Faça Amor Não Faça Guerra”. O nu frontal de Jane Birkin no filme “Blow Up”, de Antonionni, enquadrou a nudez como estética na sétima arte e tirou o conservadorismo da cena cinematográfica.
Hoje, no âmbito da cultura de massa, a nudez se tornou um mero recurso apelativo. Como produto massificado, a arte erótica restringiu-se a manutenção de tabus sexistas. Já a contracultura, desconstruída em cultura pop, virou fundamento de padrão de consumo.
Assim se comporta a indústria do entretenimento. De forma oportuna (ou oportunista), investe para domesticar e lucrar em cima dos padrões que passa a deter. Mas eis que os 40 anos de glória do pensamento pragmático neoliberal está chegando ao fim.
E aqui estão The Flaming Lips e Yeasayer, então, para dar as boas-vindas à era dos computadores que fazem arte e dos arteiros musicais que fazem dinheiro com música livre. Uma música capaz de criar e recombinar símbolos em sonhos, acordes em palavras, imagens em sons, nudez em mensagem. Trilha sonora de novas utopias.
The Flaming Lips, Watching the Planets
Teatro e desbunde aparecem juntos no novo vídeo do The Flaming Lips, “Wathing the Planets”. A música integra o álbum “Embryonic”, o décimo da carreira da banda de Wayne Coyne, que, além de atuar, co-dirige o vídeo junto a George Salisbury, artista gráfico responsável pelos vídeos e capas dos discos do The Flaming Lips.
O vídeo, um ritual com ares psicodélicos entre bicicletas e bolha-vagina, exibe algo mais engajado, anárquico, bem-humorado e, como de costume, excêntrico. Tem um grand finale: bolha-vagina adentro, todos nus para afirmar a arte como tradução (ou concepção) da vida.
Yeasayer, Ambling Alp
O Yeasayer é mais do que uma das bandas da prolífica cena do Brooklyn inspirada no Animal Collective. É das corajosas que fazem do pop um experimento de vanguarda. O vídeo de “Ambling Alp”, primeiro single de “Odd Blood”, aguardado sucessor do “All Hour Cymbals”, disco de estréia do Yeasayer lançado em 2007, confirma o propósito de transcender. Para promover o lançamento do single, primeiro uniram nudez e tecnologia em um experimento psicodélico-audiovisual-interativo em 360 graus. O vídeo permite rotacionar e distorcer as imagens de pessoas nuas, ora deitadas, ora andando a cavalo ou correndo em paisagens vulcânicas, enquanto um mantra eletrônico escapista arranca razões cartesianas de nossas mentes. Uma espécie de portal do universo Yeasayer.
Digerido o aperitivo psicodélico, chega a vez do vídeo oficial de “Ambling Alp”, uma viagem surrealista com ação ambientada no cenário delirante descrito acima, regada a polirrítmias afrocelta-(im)pops e camadas de blips & blops eletrônicos. Tudo com a ajuda da Daft Arts and Spy Films e dos videomakers Radical Friend (ou Kirby McClure and Julia Grigorian). Eis o Yeasayer, um legítimo produto cultural contemporâneo, repleto de experiências que extrapolam o seu principal ambiente de atuação (o musical).
Veja o “teaser” em 360º de “Ambling Alp”. Abaixo, o videoclipe oficial.








Rock, nudez e contracultura!. A música está mais livre mesmo, Carlos. Que bom saber que você voltou a postar. Acompanhava o seu blog no iG. Muito bacana. Difícil ler abordagens como essa. Continue assim! Aproveito aqui para sugerir o vídeo da música Gobbledigook do Sigur Ros que tem tudo a ver com esse post. Você pode ver o vídeo no site deles. Valeu!
Belo post. Belo mesmo, como um corpo nu.