Pram: música de arte e de combate

Pram - Moving FrontierEm tempos de celebração dos 40 anos da revolução dos estudantes franceses nas ruas de Paris, convém citar o Situacionismo, movimento político-artístico-contracultural que alcançou seu auge durante os levantes do Maio de 68. E o faço através da música do Pram, que faz de sua carreira um equivalente situacionista, da “construção de situações”, uso situacionista da arte, derivando-a em ideologia libertária.

Se nos meados dos anos 70 Malcom Mclaren engendrou a estética punk inspirado pelos slogans que os situacionistas pintavam em suas roupas, o Pram assume a prática situacionista da derive para dispersão do mundo industrial, do que serve e do que se aplica e se usa, e dos dogmas do pop como método do seu manifesto.

À deriva, pois, aos lugares incomuns da música do Pram, arquiteturas sonoras contraculturais: Sargasso Sea, Dark Island, The North Pole Radio Station, The Museum of The Imaginary Animals, melhores discos desse quinteto de Birminghan, Inglaterra, até o lançamento de Moving Frontier (2007), nono da banda. Tratado situacionista e Impop. Do título, que desafia o conceito de fronteiras, à expressão sonora, convictamente disposta às vanguardas. Anti-música que remete ao Dadaísmo, Futurismo e Surrealismo.

Pram
Pram: acima da crítica

Após 18 anos de carreira, muitas experiências, uma nota zero do NME (para o disco Sargasso Sea (95) e que me chamou atenção para a banda e torná-la uma ‘recordista’ de vendas na minha extinta loja de discos), Pram parece que encontrou o foco perfeito para as paisagens mentais que seus sons constroem em “Moving Frontier”. São “miragens” de jams entre jazzistas e cientistas do dub e da música digital. Síntese dos fragmentos da música contemporânea, de sua diversidade de estéticas.

“The Empty Quarter”, faixa de abertura, introduz o naipe de instrumentos de sopro e orgãos hammond que despitam a reverência futurista ao krautrock nos temas instrumentais do disco. Remetem aos anos 20, berço das vanguardas regadas à inteligência subversiva e boêmia necessária para qualquer ritual de ruptura. Aí destacam-se “Iske”, com estruturas sonoras que unem latinos a balcãs, e a indescritível “Blind Tiger”. Evocam a obra de Tom Waits com sonoridades “regidas” (em sonho) por Miles Davis e Nino Rota.

Enquanto as músicas remetem a universos e sistemas independentes, a vocalista Rosie Cuckston se presta a tratar de temas mundanos, como crítica e objeto a ser subvertido. É o que faz em “City Surveyor”, música em que a parceira da Stereolab Laetitia Sadier no projeto Monade aponta mazelas capitalistas – como a corrupção – com a sutilieza de um suspiro: “Everyone wants a date with the city surveyor,”. Já em “Moonrimer”, outra notável do disco, coloca seus suspiros à serviço de ruídos atípicos herdados da escola My Bloody Valentine. Este é um ponto que liga esta a “Salt & Sand”, “Salva” e “Hums Around Us”, onde a voz é harmonizada como elemento da estrutura musical.

Música de arte é música de combate

Arriscando divergir de Guy Debord e dos demais situacionistas que pregavam o fim dos conceitos, dos estilos, das estéticas, batizo de música de arte a música do Pram. Prefiro chamar assim algo que subverte pela criação; que não se resume a simples fuga do estereótipo, da clonagem em série e sem graça do pop. Nos não-locais do Pram fórmulas não resistem às idéias; ritmos se entregam às polivalências. A melodia despreza refrões. A palavra de ordem é substituída por trilhas para um contínuo movimento de construção. Traz a inquietação das utopias, ainda uma arma de combate contra a devastação, da cultural à ecológica, causada pelo fundamentalismo do consumo.

Para ouvir, ver, baixar, comprar e saber mais sobre Pram:
Site Oficial | Moving Frontier (p/comprar) | Gravadora Domino | MySpace | LastFM | Blogosfesra

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