Maquinado

Lúcio Maia. Leo Antunes/CircuitoPE.org

Para Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi, é possível aplicar a palavra máquina como substantivo e adjetivo. É um homem-máquina; é uma máquina. Sua forma febril de tratar sonoridades pela sua guitarra entortam conceitos, encerram possibilidades. Acordes, riffs, timbres, ruídos, tudo que produz se desdobra em massas de sons que podem ser identificadas como típicas de um equipamento. A combinação de guitarras, amps, pedais, softwares, está em Maquinado, um projeto musical que “não é um trabalho solo do guitarrista da Nação Zumbi”, segundo o próprio Lúcio, durante a apresentação de estréia do grupo, no Sarajevo, na balada Frankafrica, em SP, quarta passada.

“19 pessoas já participaram das gravações do disco”, explicou Lúcio durante o show. Um time de bambas estava no palco: Catatau (Guitarra e teclado), Rian Batista (baixo) e Clayton (bateria), do Cidadão Instigado, e Júnior Boca, guitarrista da banda do Otto. É um coletivo musical com o qual Lúcio Maia compartilha idéias anotadas em laptop nas folgas da Nação Zumbi.

Assistir o Maquinado em ação é fazer um exercício semiótico. O que Lúcio, Catatau e Júnior Boca tocaram pareceu pouco com sons de guitarras. Os dedos pressionavam sons, ruídos, efeitos, não apenas notas musicais. Apesar do conteúdo experimental, a embalagem é, arrisco dizer, (im)pop. Muito por conta dos grooves inevitáveis, evoluídos em cima de manipulações de dub, hip hop, funk, afrobeat, pós-rock e manguebeat.

Lúcio canta em algumas músicas de maneira despojada, remetendo ao estilo de cantar de um guitarrista que parece não fazer parte das suas influências: Tom Verlaine, do Television. Referências, ou melhor, reverências, integraram o set. A releitura de Computer Love, do Kraftwerk, “a banda de Afogados da Ingazeira percussora da chamada música eletrônica”, segundo Lúcio. Quis dizer que Düsseldorf, Kingston, Recife, São Paulo, estavam ali juntas, costuradas pelas linhas sinuosas do dub. A versão do clássico da banda de Florian Schneider e Ralf Hütter explica um pouco da razão de ser do Maquinado. Dennis Brown, Jorge Ben e sempre Hendrix materializaram-se também por entre o palco e o público que lotou e sacolejou o Sarajevo.

Se depender do que se viu e ouviu naquela noite, o Maquinado tende a se tornar um portal de expressões musicais contemporâneas parceiro do coletivo Instituto.

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