Toda vez que escuto a frase The Winners Takes it All sinto um soco no estômago. No mundo corporativo é utilizada para ilustrar os negócios “imbatíveis”, sem parâmetros de competição no mercado. Ou seja, o caminho que o rebanho deve seguir. Além de me fazer lembrar da música do Abba, causa profunda perplexidade esse entendimento de que a cópia vale a pena.
Sou incapaz de lidar com isso. O que me leva a um estado de combate político perene, a rumar pelo atalho da divergência, adotar o estilo de vida dos losers. Aí fica melhor: lembro da música do Beck (“Loser“), dos filmes do Tarantino, do grande Lebowski, o The Dude, dos irmãos Cohen.
Falo do filme O Grande Lebowski, que, enfim, foi lançado em DVD no Brasil. É um manifesto clássico de desprezo pela sociedade do resultado. Fez do personagem largadão The Dude, vivido brilhantemente por Jeff Bridges, um mito merecedor até de evento global, a Lebowski Fest.
Aqui vai um vídeo com colagem frenética de trechos do Dude às voltas com a sua palavra predileta: The Big Lebowski – F_cking Short Version
Mesmo assim, com toda a irreverência do Dude, ainda prefiro o Barton Fink, dos mesmos Joel e Ethan Cohen, sobre um roteirista que não consegue fazer um filme popular por não saber lidar com as regras de Hollywood. Uma ode ao Impop.
Prosseguindo com o despejo automático de consciência, como diria Jack Kerouac, reforço a abordagem loser com High Fidelity, adaptação de Stephen Frears para o cinema do livro de mesmo nome escrito por Nick Hornby. O personagem Rob, interpretado por John Cusack, é o meu favorito ao posto de maior dos losers, por todas as suas vulnerabilidades que conflitam com a fidelidade que tem pelos seus ideais e pela sua coleção de discos. Do personagem desajeitado de Nick Hornby sou suspeito de falar, pois tenho afinidade com ele: fui dono de loja de disco sem fins lucrativos.
Saindo dos personagens fictícios, mas ainda mantendo a rota dos losers na sétima arte, temos um outro “perdedor” inspirador: Harvey Pekar, o comum incomum escritor de HQs americano, amigo e seguidor do cartunista Robert Crumb, foi parar na telona com o filme American Splendor, nome de sua série de quadrinhos, outro clássico loser.
E o post terminou virando uma homenagem aos “ordinários”: gente que não lê a Veja, não gosta de blockbusters, ouve música impop e se alimenta de sonhos considerados impossíveis. Pessoas incomuns que levam uma vida comum. Gente genuína, à prova de generalizações. Modesto eu, não?
A trilha sonora do post – tinha que ter, né? – é puro conceito impop: abdica de padronizações, consensos e constrói realidades improváveis.
“Loser” – Dr. Lonnie Smith.
No álbum Boogaloo to Beck o organista desmonta clássicos de Beck em partículas jazzísticas cheias de grooves fora de controle.
“You’re Gonna Miss Me” – 13th Floor Elevators.
Psicodelia garageira da banda do alucinado Rory Erickson. Da trilha do filme High Fidelity.
“Just Dropped in (To See What Condition My Condition Was In)” – Kenny Rogers & the First Edition.
Sim, ele teve seu tempo impop de psicodelia. Da trilha Sonora de Big Lebowski
“Chasin’ Rainbows” – Robert Crumb & His Cheap Suit Serenaders.
Para Harvey Pekar, seu mestre dos quadrinhos tocando blues. Da trilha do filme American Splendor.
“Little Green Bag” – George Baker Selection
Grooves ao melhor estilo J Brown. Afinal, o soul-funk sempre foi uma força marginal. Da trilha de Reservoir Dogs.
“Bottom of The World” – Tom Waits.
Sons de perdidos, perdedores, foras da lei, vidas marginais que dão luz ao maravilhoso mundo de Tom Waits. Do álbum Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards.







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