Hurtmold, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e os contratempos

O contratempo na vida muda o rumo das coisas. É um inimigo do pré-estabelecido. Na música, como um recurso harmônico, diretamente envolvido com o ritmo, também promove uma nova ordem. Tem tudo a ver com o que aconteceu comigo neste domingo. Às 22h deveria transmitir o Música Impop, versão em áudio deste blog, no Submusica. Seria o primeiro depois de um tempo de recesso. Mas não tive como resistir ao convite para assistir Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e Hurtmold, em mais uma edição do Projeto 2 em 1. Como o acaso é inteligente, o que nos dá a certeza de que nada ocorre por acaso, as duas bandas vão integrar o podcast do programa que postarei logo mais em homenagem ao Dia do Trabalho.

O show só valeu o contratempo. E foi um show de contratempos musicais, de provocações harmônicas ao estabelecido como rock, pop, samba, baião, jazz. Uma demostração de que a produção musical brasileira guarda um lugar único no cenário global e sem apelar para hypes.

Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta

Vindo de Salvador, o quarteto Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta alinha com o Tara_Code na ponta de lança da cena baiana. Ambas podem facilmente portar o título de bandas autorais. Inclusive já partilharam idéias quando Gilberto Monte, guitarrista do Tara_Code, produziu a demo que antecedeu o lançamento do primeiro CD, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta. O disco, lançado no final de 2005, apesar de gravado em fevereiro daquele ano, foi a base do show de domingo.

Por tocar para um público de ouvido escolado pelo Hurtmold, o quarteto baiano estava à vontade para executar seu som apurado. Uma música que provoca o pop com experimentalismos harmônicos e desafia a vanguarda cabeçuda por fazer soar tudo tão simples, cantável e poético. O vocalista e guitarrista Ronei Jorge canta a dor da perda da paixão, sempre sujeita a um bom samba-canção, sem pieguice e com ruídos, evoluções punk e dodecafonias. A batucada ao final festeja a felicidade desse enredo. Assim O Drama ganhou devidos muitos aplausos do público reverente. Já em Obediência o samba foi desconstruído em partículas de rock psicodélico por riffs poderosos do excelente Edson Rosa. Um feliz encontro de MPB com Rock sem dar chance ao clichê e a qualquer comparação com o Los Hermanos.

Hurtmold - Divulgação. Foto: Paulo ZapellaÉ chegada a hora do Hurtmold, anunciado pela promotora do evento como Heartmold! Mas pouco importa, ou melhor, tem a ver, afinal, trata-se de uma banda indefinível. O Hurtmold promoveu a hipnose de sempre e colocou a audiência para…dançar! Isso mesmo, o Hurtmold coloca a vanguarda na ciranda dos passos da nova música. Os experimentos ora atonais, ora poliritímicos do repertório ancorado no CD Mestro tornaria improvável o convite a dança. Mas a amarração de todos os caminhos distintos que cada músico do Hurtmold percorre aproxima a ritmos como baião, assim como ocorreu com Amarelo e Vermelho. Uma alquimia forjada da cabeça dos cientistas do dub.

Foi um show diferente daquele que fizeram no Sonar, em 2004. Diria que inversamente proporcional. Naquela ocasião, o septeto (contaram com a participação do Rob Mazurek, trompetista do Chicago Underground) colocou o ritmo por trás da parede etérea construída com free jazz e escapismos eletrônicos.

Esse domínio de ir e vir, manipular, desconstruir fronteiras musicais, expresso no revezamento que fazem entre si de vários intrumentos, dos de sopro aos percussivos, só confirma a condição de músicos dos integrantes do Hurtmold, mesmo que estejam numa categoria evoluída, próxima da não-música por uma leitura mais convencional.

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2 comentários

  1. [...] Impop HURTMOLD, RONEI JORGE E OS LADRÕES DE BICICLETA E CONTRATEMPOS por CARLOS FREITAS [...]

  2. Bandas como Ronei Jorge e Hurtmold são remédios contra a apatia da música no Brasil e que me dá forças para não me dedicar totalmente ao silêncio. Parabéns! quando der passa no meu blog também. Vivo assim, querendo romper fronteiras as do atavismo artistico brasileiro.

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