Pelo menos no Planeta Terra 2009 o mainstream teve seu momento de redenção. Vingou a “derrota” que sofreu na edição de 2008 do festival, quando Bloc Party, Kaiser Chiefs e The Jesus and The Mary Chain levaram de goleada do Foals, Animal Collective, Spoon e The Breeders. A diferença abissal de relevância entre as atrações dos palcos principal e alternativo desse ano já prenunciava o fato. Afinal, Primal Scream, Sonic Youth e Iggy Pop & The Stooges estavam escalados no palco principal da terceira edição do evento. Uma noite que nos levou por caminhos diversos a revisitar a essência visceral do rock. Principalmente por conta de Iggy & The Stooges.
A apresentação do Primal Scream foi caracterizada por um exagerado distanciamento da banda para com o público. No limiar da imprecisão (chegando ao ponto de tentarem executar “Exterminator” duas – mal sucedidas – vezes), os screamadélicos liderados por Bobby Gillespie pareciam não estar a vontade. Talvez por culpa da sombra da decadência que já parece persegui-los.
Prefiro imaginar que assumiram uma postura de autocrítica em relação a guinada pop evidenciada no seu mais recente álbum, o irregular Beautiful Future, que não lhes rendeu o esperado retorno de crítica e público.
Com isso, as músicas ganharam versões mais arrastadas, conduzidas por um surpreendente acento krautrock que as tornou áridas, monocromáticas, distópicas. O que me agradou. Foi sem dúvida um show provocativo, meio insolente. Mas não cativante, apesar da seqüência final de clássicos do que se convencionou chamar de rock morderno: “Swastika Eyes”, “Movin’ On Up”, “Rocks”, “Accelerator”.
Ao contrário do Primal Scream, o Sonic Youth mostrou estar de bem com o rumo de sua carreira. Principalmente com seu último disco, The Eternal, que pautou a exibição da banda novaiorquina.
Com suas tradicionais expedições aos ruídos impossíveis, fizeram uma apresentação irrepreensível. De forma avassaladora cada tema apresentava um novo mundo de novos tons e dissonâncias pelos riffs das guitarras de Thruston Moore, Kim Gordon e Lee Ranaldo.
A música do Sonic Youth porta uma estética sofisticada que jamais será ultrapassada. São temas instrumentais que dialogam com o formato canção. Uma música que dá espaço para o improvável. Assim surgem engenhosos improvisos entre as partes cantadas. Como em “Death Valley”, música do Bad Moon Rising, que finalizou a apresentação com sons dos instrumentos jogados no palco.
Pop, jazz, no-wave, pós-rock, indie. Qualquer esforço para rotular a aura misteriosa e fascinante do Sonic Youth continua sendo em vão.
Seria uma missão difícil para qualquer banda subir ao palco após um show como o do Sonic Youth. Menos para Iggy & The Stooges. Iggy foi além. Roubou a cena. Fez um show histórico baseado num valor fundamental da sua carreira: integridade. Possivelmente, o elemento que garante a longevidade de suas músicas que cada vez mais podem ser chamadas de seminais.
E lá estavam o The Stooges com Scott Asheton na bateria, Steve Mackay no saxofone, o guitarrista James Williamson (o co-autor do Raw Power) e com a especialíssima participação de Mike Watt (ex-Minutemen e fIREHOSE), possivelmente o melhor baixista do rock depois de John Entwistle, do The Who (sempre quis dizer isso).
Enquanto a banda espalhava raw power no ar, Iggy já tratava de desobedecer todas as marcações do palco. Aos 62 anos, mostrava um vigor impressionante. A platéia se contorcia junto. Um dançava no alambrado; um outro se jogava no chão. Os seguranças de preto se ouriçavam. E tome pescoços engravatados pelos braços truculentos da segurança. Afinal, a ordem que imobiliza precisa ser mantida, como pensam os que abusam do direito natural.
Do palco, incomodado, Iggy Pop observava aquilo tudo. Íntegro, mostrou que não mente quando canta “give me danger, fucking danger” (“Gimme Danger”). Tomado pelo espírito de Bakunin, abriu as portas do palco para seu irreverente público dançar e pogar “Shake Appeal”. E assim cerca de 100 pessoas passaram a integrar os Stooges. Uma cena antológica que marcou a noite e que representa bem a relação simbiótica que deve nortear a relação entre artista e público.
Com o domínio da situação entregue à força de músicas como “Search & Destroy”, “I’m Loose”, “Funhouse”, “I Got a Right” e performance incendiária de Iggy, o clima permaneceu tenso, propício para o som sujo e agressivo do The Stooges sublinhar sua influência no punk. O fora de série Mike Watt era prova maior disso, tamanha integração dele com a banda.
E assim todos cantaram “now i wanna be your dog” (“I Wanna Be Your Dog”), um para o outro, Iggy e platéia. Momento marcante do show também pela homenagem prestada por Iggy Pop ao eterno Ron Asheton, guitarrista e membro-fundador do The Stooges, falecido em 06 de janeiro desse ano.
Após duas horas de entrega, com “The Passenger” e “Lust for life” finalizando o show, o visceral Iggy Pop arremessou (metaforicamente) pedaços dele para a platéia. Os que peguei ficarão guardados para sempre.
(Foto de Gabriel Chiarastelli)







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