Inspirado pelo novo videoclipe do Eddie, “Eu Tou Cansado dessa Merda”, inauguro aqui no Impop uma pauta dedicada a vídeos de animação.
A combinação entre música e animação me fascina. Primeiro porque vejo como conseqüência das obras de Frank Miller, Neil Gaiman, Alan Moore, Robert Crumb, Joe Sacco. Eles que foram alguns dos principais responsáveis pela mudança de status das histórias em quadrinhos para obras maiores, adultas, por abordarem temas filosóficos e políticos com o poder de divertir e provocar, reportar a realidade por traços fantásticos e subversivos. Influenciaram áreas diversas de produção artística (como a musical) e revitalizaram a cultura pop com uma forma de arte que diverte e atiça o cérebro.
Geralmente as animações primam pela originalidade. Constroem impressões que se distinguem entre os elementos musicais e os gráficos, ressaltando nuances autorais, da paleta de cores à concepção visual. Leva ao mundo cinemático uma relação artesanal entre obra e criador: geralmente quem cria é o mesmo que executa, do desenho no papel ou criação gráfica por meios digitais à roteirização e edição.
Pode ser apenas impressão ou uma questão do velho gosto pessoal, mas hoje os recursos de animação dão à criatividade asas para vôos mais radicais. Mais importante: parece ser uma linguagem mais alinhada com essa época das remisturas, como instrumento que permite ao antigo freguês se expressar a partir de uma música predileta. Não é à toa que muitas bandas catam nas comunas de videomakers os produtores e diretores dos seus próximos videoclipes. Radiohead e DJ Shadow que o digam. Já promoveram concursos concorridos com esse intuito.
Para enriquecer o post com palavras de quem entende mesmo do assunto e revelar detalhes da criação e produção do videoclipe “Eu Tou Cansado dessa Merda”, passo a palavra para o artista gráfico Helder Santos, que fez todo o trampo do vídeo em conjunto com a roteirista e produtora Camilla Loyolla e a agência CherryPlus.
Impop – Conta a história do vídeo. Você foi procurado pelo Eddie ou levou a idéia do videoclipe para a banda?
Helder Santos – O trampo com o Eddie nasceu lá em casa. Na verdade eu Fabinho Trummer (guitarrista e vocalista do Eddie) dividíamos um apartamento na época do lançamento do CD Carnaval no Inferno. Quando ele começou a gravar o disco já tínhamos combinado de eu fazer a capa. Fabinho como bom Olindense queria falar do carnaval mas de uma maneira diferente. A gente queria mostrar um carnaval bad trip. O lado barra pesada que quem é de Recife e Olinda conhece, mas, claro, dando uma viajada maior ainda. Criamos os personagens da capa. A partir disso veio a oportunidade do clipe.
Impop – Foi você que propôs o videoclipe da música Eu Tô Cansado dessa Merda?
Helder Santos – A gente sempre ficava indignado com as coisas que estavam acontecendo no Brasil. Como o poder do tráfico, o crack invadindo cada vez mais os grandes centros, desmatamento e assassinatos nos interiores e a politicagem escrota que está sempre por trás de tudo. Como sentíamos presos no meio dessa merda toda. Quando Fabinho me mostrou a música “Tou Cansado dessa Merda”, quis fazer o clipe na hora. Era a música que tinha essa pegada social que eu queria aproveitar para criar algo.
Impop – E quanto as máscaras que aparecem no vídeo? É impressão ou aparecem como argumento condutor da animação?
Helder Santos – Então, em cima da história do disco e de tudo que já tínhamos discutindo juntos veio a idéia desse festival de máscaras mostrando essas situações extremas que vivemos e que estam ao nosso redor. Foi quando chamei Camilla Loyolla, minha esposa, pra escrever o roteiro comigo. Eu tinha um monte de cenas soltas na cabeça e ela habilmente soube me ajudar a costurar tudo. Fiz um super pesquisa em cima de máscaras do mundo todo. Todas as máscaras existem de verdade. São africanas, esquimós, chinesas, japonesas, mexicanas, indígenas etc. Queria resaltar a universalidade dos temas através das máscaras, podendo situar tudo no Brasil ou em qualquer lugar do terceiro e primeiro mundo.







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