You’re listenin’ to a machine I imitate human being. I’m a machine being to satisfy your greatest dream – Lee Perry (tirada das notas do LP Macro Dub Infection)
Com a mente em chamas após uma rotineira audição de Talkin Blues, de Bob Marley, não resisti e dirigi o meu magic bus para uma rota entre Mississipi, New Orleans e Kingston, Jamaica.
É um caminho que comprova que o mundo não tem fronteiras, só encruzilhadas. Entre algumas pesquisas e muitas audições, aqui vai uma inverossímil defesa da tese de que a fusão do blues com o dub fundamenta a música contemporânea.
Se o blues é um dos pilares, o dub é o conceito que norteia as vanguardas deste início século. Tem efeito abrangente que vai além das escalas musicais. Basta olhar a repercussão da cultura do remix no debate que circunda o direito da propriedade criativa, ou copyrights.
Desta fusão germinaram sementes do rap, derivações do techno, pós-rock e modelos de produção e difusão alternativos aos do mainstream. Como os sound systems que percorriam a Jamaica divulgando produções obscuras. E com eles os DJs, que incendiavam as praças com improvisos vocais. Assim surgiram U Roy e Big Youth, que atravessaram a encruzilhada do soul com Gil Scott Heron para contar mais uma estória sobre a paternidade do rap.
Quando os DJs Lee Perry, King Tubby e Errol Thompson tratavam temas instrumentais com inusitadas colagens, sobrepondo sons processados com todos os poucos efeitos que tinham a mão, criaram o dub. O conceito musical que abriga uma nova classe de criadores: os não-músicos. São engenheiros de som, produtores, arquitetos musicais. No legendário estúdio Black Ark, de Lee Perry, em Kingston, Jamaica, foi criada uma encruzilhada com a auto-estrada futurista dos remixólogos alemães do Kraftwerk.
Remixologia. Ciência ou arte? Ou as duas opções? Certo mesmo é que muito de tudo isso começou com a paixão dos negros jamaicanos pelo blues, soul e rhythm and blues de New Orleans. A semente do blues jamaicano estava plantada. Mais tarde, pelas mãos ágeis do guitarrista Ernest Ranglin, do Skatalites, a versão jamaicana do blues ganharia compassos rítmicos mais acelerados, cortesia do calipso e mento das Antilhas. Nascia o Ska.
Ditada pelo ritmo malemolente mais adequado à vibe de ganja, a pulsação tendeu a desacelerar. Diz a lenda que Toots and The Maytal registraram de Reggae este novo descendente do blues nos cartórios das praias jamaicanas, por volta de 1968.
Adiantando o tempo para o final dos anos 70, o reggae e o ska já sacolejavam o punk inglês através do Steel Pulse e Linton Kwesi Johnson, que adotou o dub como base para seus poemas incendiários. Estava fundada a dub poetry, cuja influência reverberou no rock em discos clássicos como Sandinista, do The Clash.
Outro registro essencial é o Metal Box, do Public Image Limited. John Lydon, Jah Wobble e Keith Levene usaram o dub para provar ao mundo as possibilidades de fundir reggae, funk, punk e disco. Tanto o Clash quanto PIL embarcaram na trip do dub pelos sound systems de Jah Shaka nas ruas de Londres.
A rachadura que o punk promoveu disseminou uma nova cultura. O barulho das ruas calou os escritórios. Até que a partir do final dos anos 80, os estúdios assumiram a vanguarda que pulsava nas encruzilhadas do planeta. Viraram locais de renascença. Após a primeira invasão do reggae, o ritmo aliado aos recursos dub contaminou as mentes dos produtores que arquitetavam novas tendências musicais baseadas nos recursos tecnológico-eletrônicos.
Como um efeito fractal, novos gêneros musicais surgiram: electro, house, trip-hop, pós-rock. Todos sob efeito dos experimentos processados nos idos anos 70 por Lee Perry, King Tubby, Errol Thompson, entre outros.
Logo na ressaca da acid house e enquanto a rave generation dava seus primeiros passos, o Primal Scream lançava Screamadelica, pilotados pela dub mind de Adrian Sherwood, outro “seguidor” de Jah Shaka. Movin´on up! Os subterrâneos convergiram para o asfalto tingido de cores psicodélicas.
Como Dono da gravadora On U Sound, Adrien Sherwood estreitou o conceito dub com o dos cut ups de William Burroughs. Produziu explosivos de literatura, política e música colando integrantes do The Last Poets com Sugarhill Gang e revelando Dub Syndicate, Revolutionary Dub Warriors, Playgroup, African Head Charge. O dub estava consolidado como fundamento da contemporaneidade musical.
São muitos os discos que ilustram de uma forma mais didática a influência do dub, e por conseqüência do blues, na música de hoje. Alguns viraram clássicos. É o caso do No Protection, perversão do Protection, do Massive Attack, pelo mestre Mad Professor. Um outro exemplar é a celebrada coletânea Macro Dub Infection, lançada em 1995. Nela se encontram tendências, artistas e bandas diversas como 4 Hero, Tricky, Bill Laswell, Tortoise, God, representantes da vanguarda da cultura musical dos anos 90, colidindo suas linguagens e criando subtextos musicais.
No Brasil o dub vem dando caldo. Eventos itinerantes estendem o gênero às ruas, como o Dubversão, em São Paulo. Nos palcos, Apavoramento, Digitaldubs, Instituto, Echo Sound System, revisam as mutações rítmicas do dub com a peculiar ginga brazuca.
Como se não bastassem os efeitos sob a concepção de música avançada, o dub promove uma outra revolução conceitual que atinge a polêmica da autoria e copyright. A arte de mixar músicas, sons, samplers pode facilmente ser considerada como autoral, mas não é assim que editoras, advogados e alguns compositores pensam quando identificam algum “pedaço” remodelado de sua música em outra assinada por um outro. A briga feia que travam Scientist e King Jammy, mestres do dub, mostra bem o nó cego da questão.








legal essa matéria, Carlos… gosto do seu estilo pq vc vai fundo, coloca muitas infomrmaçoes, não fica na superficialidade… vida longa ao IMPOP! abs!