China – Moto Contínuo

China - Moto Contínuo

China - Moto Contínuo

Em seu segundo disco solo, Moto Contínuo, China reitera a força da inteligência e obra coletiva, fazendo dela brotar um sentido de liberdade autoral. Muito mais do que canções pop, compõe reconstruções de linguagens estabelecidas sob uma dinâmica em que o autor também é produtor. Ele é o meio.

China porta na sua assinatura, além de cantor e compositor, atributos de produtor, VJ e proprietário de gravadora – a Joinha Records. Moto contínuo, conceito da física para uma máquina que reutiliza a própria energia em movimento, é, portanto, uma declaração de princípios.

Com Moto Contínuo, China exacerba seu conteúdo pop conciliando os verbos criar e divertir ao modo colaborativo que norteou a produção do disco. A introdução desse modo de produção veio com o videoclipe de “Só Serve Pra Dançar”, lançado antes do álbum. China combinou com seu legado de fãs de fazer um videoclipe a partir de vídeos caseiros delas dançando a música, um hit instantâneo que contradiz o seu título, diga-se.

China – Só Serve Pra Dançar

As 11 músicas do disco resultam de uma ação entre amigos. Cada música foi gravada por um conjunto diferente de músicos. Assegurando assim nuances tão distintas quanto diversas. Entre os 13 instrumentistas que participaram das gravações, velhos parceiros do Mombojó, Felipe S e Chiquinho, o pródigo pianista Vitor Araújo e o baixista da Nação Zumbi, Dengue.

O extrato é uma música caleidoscópica com camadas de rock, punk, hardcore, surf music, disco, jovem guarda e subgêneros derivados. Coube a China harmonizá-las como recortes de suas crônicas cotidianas.

Chama atenção o uso do hardcore como recurso harmônico para reforçar o impacto do bordão popular “chapéu de otário é marreta” utilizado no final de “Espinhos”. Nesse aspecto harmônico, também vale destacar a orquestração na valsa bela e delicada “Anti-Herói”, composta para seus filhos Mateus e Tom.

Moto Contínuo ainda teve a participação de Pitty na balada rocker “Overlock”. Outra cantora, a Ylana Queiroga, filha do maestro Spok, da Spok Frevo Orquestra, acrescentou o sotaque e sofisticação pernambucana para “Mais um Sucesso pra Ninguém”. “12 Quedas” traz Lenine para salientar sua vocação de crooner de hits, enquanto Tiê faz dueto aveludado com China em “Terminei Indo”.

As referencias à jovem guarda se apresentam sem pudor. Impossível não lembrar de Roberto Carlos na forma como China posta sua voz em “Nem Pensar em Você”. Vem a mente os bailes do projeto Del Rey, em parceria com o Mombojó. Mas o diálogo nervoso das guitarras com texturas e levadas synth-disco, tão caro a bandas como Franz Ferdinand, afasta qualquer sugestão revivalista.

O Moto Contínuo de China é uma obra que reafirma o genuíno caráter mestiço da música brasileira e seu poder de reeditar o passado para subverter noções de presente e futuro.

Moto Contínuo está disponível para download gratuito no site Trama. Baixe, ouça e compartilhe.


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