Salustiano Song

Por Carlos Freitas em 2/9/2008 às 2:18 am

Mestre Salustiano
A capacidade de ensinar não encerra o atributo de Mestre. Mestre Salustiano foi exemplar neste aspecto. Além do reconhecido saber, fazia da música que fluia da sua rabeca instrumento de resistência e de renovação cultural. Mestre, dançarino (um dos maiores de cavalo-marinho de Pernambuco), músico, autor de quatro discos - “Sonho da rabeca”, “As três gerações”, “Cavalo-marinho” e “Mestre Salu e a sua rabeca encantada” -, fundador do tradicional Maracatu Piaba de Ouro, Mestre Salustiano rumou para a eternidade domingo passado, 31 de agosto de 2008.

Deixou conosco o baque solto do seu maracatu rabecado e sua enfiezada toada de cavalo marinho. Passou o solo de sua “rabeca encantada” para o seu legado: Maciel Salu, Siba, DJ Dolores, Nação Zumbi entre tantos outros que agora interligam os caminhos da zona da mata pernambucana com a morada eterna do Mestre Salu.

Tive oportunidade de entrevistá-lo, em 1998, quando colaborei para uma edição da Revista Trip que encartou um cd com coletânea de sons pernambucanos. Entre inéditas da Nação Zumbi (pré-Radio S.A.M.B.A), Mundo Livre S/A ao vivo, Devotos, Sheik Tosado, Stela Campos, entre outros, ardia “Pimenta na Brasa”, do primeiro disco do Mestre Salustiano, Sonho de Rabeca. Sobre a música, o Mestre, com seu tom naturalmente professoral, comentou: “É um forró pé de rabeca que faz parte da mais autêntica tradição do forró desde os tempos de Lampião, que animava suas festas com semelhante formação musical.”

Ao Mestre Salu dedico a seleta Impop Salustiano Song, batismo que pego emprestado da música de Chico Science e Nação Zumbi que dá o tom da representatividade e influência da obra do Mestre Salu no cenário musical pernambucano, um dos mais férteis da música brasileira.

  Seleta Impop - Salustiano Song (38.5 MiB, 7 hits)



Mestre Salustiano - Pimenta na Brasa
Mestre Ambrósio - Pé de Calçada
Mestre Salustiano - Toada de Cavalo Marinho
Nordestina - DJ Dolores & Orchestra Santa Massa (com Maciel Salu)
Mestre Salustiano - Maracatu Rabecado
Siba e Fuloresta do Samba - Caluanda
Mestre Salustiano - Salu na Rabeca é Bom
Chico Science & Nação Zumbi - Salustiano Song

* Foto do post por Gustavo Pereira (fotoguga)

Beat-Bop

Por Carlos Freitas em 29/8/2008 às 1:40 am

Miles Davis, John Coltrane, Jack Kerouac, Tom Waits
Beat-bop, beat-bop, beat-bop. Ressoa o relógio, dispara o coração, pulsa o pulso. Jazz, literatura Beat, utopia, anarquia, novo primitivismo. Coltrane, Miles, Kerouac e Waits conversam em vários planos sobre a essência da cultura livre e mestiçagens da comuna criativa, enquanto a música transita por um universo livre, vagabundo, infindo.

Por volta da meia-noite, inerte ao acaso inteligente do improviso de Miles Davis e à batuta de John Coltrane e seu quarteto. “My Favorite Things” e o tempo pára. Para não se opor à música. Para harmonizar dialéticas. Para deixar o sopro inspirador oxigenar idéias e deixá-las imunes à erosão do pensamento único. Tudo menos o nada. Tudo menos o poder. Princípio do princípio.

Já o outro tempo, o que transforma frases musicais em fluxo contínuo de idéias, dita o ritmo das palavras. Poesia beat. Beat de Jack Kerouac, que ditado pelos acordes livres do be-bop paria parágrafos de liberdade com sua prosa espontânea. Alas abertas para a engenhosidade do improviso. Atalho para o realismo utópico, da exigência do impossível e expressão do abstrato.

Chega aí, Tom Waits. Traz o discurso do vento e o aplauso da chuva. Mostra o ecossistema onde o homem não é câncer. Embola jazz com transcendência. Faz os “Rain Dogs” deitarem e rolarem. Afinal, “estas músicas são ilógicas. Ninguém exige que uma música tenha a mesma função de um dicionário. É como uma bolha cheia de fumaça, ela deve se espalhar pelo ar”.

A meia-noite passou. Passaram notas, palavras, ritmos, silêncios e a música continua entregue à transformação. Na firmeza. Sem sono. Beat-Bop: jazz, beatniks, utopia, anarquia, novo primitivismo. Coltrane, Miles, Kerouac e Waits conversam em vários planos sobre a essência da cultura livre e mestiçagens da comuna criativa, enquanto a música transita por um universo livre, vagabundo, desgovernado, infindo. Amém.

  Seleta Impop - Beat-Bop (49.2 MiB, 6 hits)



Miles Davis - Round Midnight
John Coltrane - My Favorite Things
Tom Waits - Medley Jack & Neal
Jack Kerouac - American Haikus

Leonard Cohen: O Eterno Regresso

Por Carlos Freitas em 13/8/2008 às 6:52 am

Leonard Cohen “Leonard Cohen: O Eterno Regresso”, biografia assinada por Marc Hendrickx, autor de biografias de Keith Richards e Elvis Presley, foi lançada em Portugual pela Guerra e Paz. Segundo a nota da edição, “A perspectiva de um legado que se corporiza num perpétuo regresso”. Já para os fãs trata-se de mais um item indispensável. Só espero que, a exemplo do que ocorreu na terra irmã de além-mar, o livro seja lançado no Brasil durante a especulada (e tão aguardada) vinda do cantor e poeta canadense para algum dos festivais que acontecerão neste segundo semestre.

Custa acreditar que o show de Leonard Cohen não ocorra por aqui. Afinal, o autor de “Hallelujah”, “Everybody Knows”, “Waiting for the Miracle”, “The Future”, “So Long, Marianne”, aos 73 anos, está de volta aos palcos após um hiato de 15 anos, tempo dedicado a um retiro espiritual zen-budista. É uma chance que pode ser única, portanto. Quem assistiu ao show garante que trata-se de um momento especial. Tenho o amigo Marcelo Costa como testemunha. Ele chorou um oceano durante e depois da apresentação do mestre no Festival Internacional de Benicàssim 2008

Que Buda ilumine a mente dos “curadores” destes festivais. Pois, definitivamente, não quero ler o livro sem ter visto o show. Do contrário, resta apelar para que o Beirut - confirmado até então no Tim Festival - toque “Hallelujah” ao bandolim como vem fazendo em alguns shows, como Impop antecipa aqui. Não deixa de ser um belo consolo.

  Beirut: Hallelujah (8 MiB, 17 hits)



Por fim, reproduzo a nota completa e um trecho da edição portuguesa de Leonard Cohen: O Eterno Regresso:

Este é um livro muito especial em que Marc Hendrickx confronta o leitor com a obra do incontornável cantor e poeta judaico-canadiano Leonard Cohen. Muito longe de ser uma biografia, aqui o autor procura, através de um registo intimista, as respostas para questões sobre o Homem, a felicidade, a tomada de consciência, a fé, o objectivo de vida, o amor, a velhice e a morte. Esse processo é simultâneo com a abertura de horizontes sobre a vida do artista que homenageia, abarcando fases como a sua passagem pelas ilhas gregas ou pelo mosteiro zen da Califórnia onde Cohen se refugiou por diversas vezes. Sem esquecer a sua fama internacional, este livro devolve–nos a perspectiva de um legado que se corporiza num perpétuo regresso.

Um trecho:

A meio do percurso da minha vida, dei por mim num bosque sombrio.» Poderia ter sido uma citação. Contudo, hoje, mais de setenta anos depois de Leonard Norman Cohen ter soltado o seu primeiro grito neste mundo, o poeta profético que cura olha para trás com brandura. A sua divina comédia está quase terminada. O seu humilde servo, leitor, pelo contrário, ainda só chegou à orla da escura floresta.

Para o funk soul brother Isaac Hayes

Por Carlos Freitas em 12/8/2008 às 1:34 am

Isaac Hayes (1942 - 2008)

O vídeo de “Walk on Bye” na home não encerra o tributo Impop a Isaac Hayes. Um dos pilares do funk & soul, junto a Curtis Mayfield, Marvin Gaye, Otis Redding, Al Green e James Brown, dono de uma voz barítona que dimensiona a profundidade de suas canções e a forma aguda com que se entrega a elas, Isaac Hayes deixa uma eternidade de clássicos para a história da música.

Clássico, aliás, é um conceito que se aplica à carreira e perfil do funk soul brother Isaac como sinônimo de obra definitiva, eterna, e pela classe de suas interpretações, sempre equilibrada no limite tênue entre paixão e razão. Assim, pelos crescendos arrepiantes dos arranjos de cordas da trilha que compôs para “Shaft”, praticamente definiu o DNA musical da blaxploitation.

É o detalhe que marca os ápices de suas músicas com um refinamento meticuloso e incomum. Coisa de mestre e de maestro dos sons da alma que foi. Tanto que Isaac Hayes leva para a eternidade a história de um punhado de hits que produziu e compôs para os acervos da legendária gravadora Stax, “versão” madura e politizada da Motown, que deve a Isaac Hayes o elo entre o soul e as manifestações políticas libertárias dos anos 60.

Hoje, no empenho de Sharon Jones & the Dap-Kings em reviver o soul dos anos 60 e 70, nas evoluções do circuito integrado de funk, soul e silício de Jamie Lidell, na batida desacelerada e pulso quase à zero do Portishead (pista: Glory Box), no ritmo e poesia dos Racionais (pista: Jorge da Capadócia), na “Disco Connection” que o LCD Soundsystem estabelece, a obra de Isaac Hayes mantém-se na pista, nos compassos do coração da música contemporânea.

Logo após o anúncio de morte de Isaac Hayes, domingo passado, 10/08, a história do mito Isaac Hayes e o seu legado na música tomou a web de assalto. Aproveito, portanto, para fazer a minha homenagem de forma compartilhada com a impopsfera, de onde catei links para dois dos clássicos de Isaac Hayes: “Hot buttered Soul”, o disco que tem Walk on Bye entre suas quatro longas, belas e complexas, experimentais até, pérolas soul, via Original Pinheiros Style, e “Black Moses”, via Lucio Papeiro. Na BBC busquei o doc obrigatório Stax History. Enquanto que da Fader baixei e aconselho o download do “DJ Wonder’s Isaac Hayes Tribute Live Mix”. Segundo a revista, comprova o status de ícone atribuído a Isaac Hayes.

E por fim, “Never Can Say Goodbye” ao vivo.

Rest in Peace, soul brother.

Pirataria legal

Por Carlos Freitas em 6/8/2008 às 2:53 pm

“Fontes “alternativas” de música [e mídia] são populares, gozam de muita e boa marca e reputação entre seus usuários e nunca desaparecerão. Está na hora de parar de remar contra a maré e ser contra o que as pessoas querem.”

O autor da frase não é nenhum defensor dos blogs de mp3, dono de site de torrents ou integrante do Radiohead. É Eric Garland, representante da “indústria de copyright” britânica e um dos autores do estudo publicado pela MCPS-PRS (instituição que representa os donos do copyright de mais de 10 milhões de títulos musicais) e bigChampagne (empresa de medição de audiência online). Como salienta o professor Sílvio Meira em seu blog, de onde catei essa notícia, o estudo atesta que a “pirataria chegou pra ficar”.

Com base no desempenho do álbum “In Rainbows”, do Radiohead, o disco que foi colocado para download com a opção do usuário baixá-lo de graça ou pelo preço que lhe fosse conveniente - capítulo fundamental da história do colapso do direito de copyright e da indústria fonográfica a partir do desenvolvimento da tecnologia digital -, o estudo concluiu que a estratégia de criminalizar o fã de música não é mesmo a melhor solução para saída da crise que abate o setor.

A trajetória de sucesso do Radiohead pós-In Rainbows realmente confirma o proposto pelo estudo. O disco, que “pode ter chegado a um milhão de downloads, 38% das quais pagos”, teve só no seu primeiro mês cerca de 3 milhões de cópias ‘ilegais’ circulando na rede. Ou seja, cerca de 100% do total de downloads pagos até então. Fato que não significou prejuízo nas contas da banda de Thom Yorke. Como disse o Silvio Meira, “o álbum [legal] foi um sucesso, as turnês lotaram, a pirataria “quase autorizada” do material da banda fez o projeto In Rainbows bombar, em todos os sentidos.”

O recado contundente deve afetar o comportamento da indústria fonográfica global, pois partiu de uma das mais lucrativas das indústrias de copyright do planeta. Vem a calhar nesse momento em que a estratégia de combate ao compartilhamento de arquivos musicais tenta obrigar os provedores a punirem os compartilhadores, o que também coloca em risco a internet livre, além do nosso direito de privacidade.

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