Pagode Russo

Luiz Gonzaga

O fole está roncando, celebrando os símbolos de uma cultura popular retratada com a graça, inspiração e originalidade que fizeram da carreira de Luiz Gonzaga um patrimônio cultural. A obra do Lua é um acervo de inventividade, forte como o sertanejo e rica, entre outras qualidades, por provocar a tradição com a tendência que tem de ser global.

Assim falou Drummond: “só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Assim sonhou Gonzagão quando compôs “Pagode Russo”: “ontem sonhei que estava em Moscou/ dançando um pagode russo/ na boate Cossaco/ Parecia até um frevo/ naquele cai ou não cai/ parecia até um frevo/ naquele vai ou não vai.”

Não só durante o período junino que o sonho de Luiz Gonzaga se mostra vivinho da silva, mas enquanto os tantos nordestes do Brasil, unos e diversos, dos sertões que viram mar, inundarem o planeta com a poesia dos seus causos e sua prosa festeira, xaxando as tradições no ritmo do arrasta-pé de sua música.

Uma prova foi vista na cosmopolita São Paulo, onde, em 2007, a cantora japonesa Miho Hatori, durante sua apresentação no festival Resfest, cantou “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em japonês, aditada de blips, blops, hips hops do mundo.

A versão interpretada pela ex-vocalista do Cibo Mato foi gravada originalmente no disco “Bonfires of São João”, do Forro in The Dark (uma homenagem a “Forró no Escuro”, de Luiz Gonzaga). O grupo novaioquino foi fundado pelo percussionista brasileiro Mauro Refosco, e tem como guitarrista Smokey Hormel (ex-Beck), com o qual Miho gravou afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes no projeto Smokey & Miho.

O disco, lançado no final de 2006, ilustra a figura de um pau-de-arara às avessas e pós-moderno. Traz o ex-Talking Heads David Byrne cantando “Asa Branca”, em inglês, numa tradução feita por ele mesmo. Além de revisistar, o Forro in The Dark também revisa a obra de Gonzação com “Wandering swallow”. Antes uma versão sem crédito autoral de “Juazeiro”, lançada por Peggy Lee, em 1951, a música ganhou suas palavras originais em português e o luxo eletrônico de Bebel Gilberto.

Bonfires of São João parece mesmo um tributo ao Rei do Baião, mas não se resume apenas à regravações. Como a “Feira de Caruaru”, tem de tudo. Exalta também a obra de Luiz Gonzaga operando o coco, xote, maracatu e baião com os experimentos mestiços e bom humor de “Qué que tu fez” e “Lampião do céu”. Conexões regionais alheias às fronteiras e trilhadas pela levada da zabumba, guitarras, pífanos, sons e ritmos digitais, fazem de “Índios do Norte” e “Forrowest” o tal pagode russo que um dia sonhou o Lua.

Quando “Cajuína”, de Caetano Veloso, dá as caras no arrasta-pé novaioquino do Forro in The Dark, ateia o fogo da fogueira de Gonzagão, que também é da musica contemporânea. Ao seu redor, unem-se modernistas, tropicalistas, mangueboys, trip hip hoppers, remixólogos e demais matutos celestiais da indústria cultural de massa para celebrar o sonho multicultural de Luiz Gonzaga.

Luiz Gonzaga Volta para Curtir

Enquanto a ditadura militar saqueava nossa liberdade de expressão, em 68, o produtor Carlos Imperial plantou o boato de que os Beatles tinham gravado “Asa branca”. A lenda serviu para atear o fogo da obra de Gonzagão na MPB.

O disco “Luiz Gonzaga Volta para Curtir” consolida a introdução da música dos sertões do Brasil no universo da nova MPB. É um registro ao vivo de um show realizado em 1972, no Rio de Janeiro. Mostra o Rei do Baião em sua plenitude artística, xaxando, forrozando, contando causos, representando o caboclo (segundo o Lua, bicho, para a juventude carioca) e confundindo com sua nata irreverência, por vezes até ingênua.

A juventude presente ao local militava em prol da liberdade de expressão no auge da repressão política. Conduzida ao teatro por incentivo da dupla tropicalista Caetano/Gil, recém chegada do exílio londrino, não sabia ao certo que estaria assistindo a uma apresentação de uma figura-chave na compreensão de toda uma teia de signos que alimentavam tanto os valores da resistência política quanto da inteligência golpista do regime militar.

Os jovens esbarraram com um mito da chamada cultura popular, tão discutida no meio intelectual. A linguagem de Luiz Gonzaga, embora simples, estéticamente falando, era compromissada com a alegria e com a expressão da liberdade. Avessa, conseqüentemente, a contornos conservadores.

É o que fica claro quando Luiz Gonzaga, com a mesma habilidade que elabora melodias irretocáveis em sua sanfona, ridiculariza o coronelismo (disfarçado de antes e o explícito da época) num discurso desferido antes do medley Qui nem Jiló/Óia Eu Aqui de Novo: “o sertão das políticas, das futricas dos cabras valentes e dos cabras frouxos também”.

O Rei do Baião é a celebração máxima de um estilo de vida que não se deixou seduzir pelas mazelas comportamentais da mídia de massa e que até hoje ilumina as cabeças pensantes com os símbolos que sustentam a tradição cultural traquina do Brasil.

Mixtape Impop – Pagode Russo: de Gonzagão para o mundo

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Tudo na sola do pé, no pé do ouvido, no ritmo do xaxado, sacolejo do forró, ateando a fogueira do Gonzagão com baião, hip hop, trip hop, manguebeat. Quarenta e poucos minutos de leituras, revisitas, releituras, influências e homenagem ao Rei e gênio do Baião de Viramundo.

Luiz Gonzaga – Pagode Russo*
Forro in the Dark – Asa Branca feat. David Byrne**
Nação Zumbi – O Fole Roncou***
Luiz Gonzaga – Pau De Arara****
Forro in the Dark – Paraiba feat. Miho Hatori**
Black Alien & Speed Freaks – Vozes Da Seca***
Luiz Gonzaga – A Feira De Caruaru****
Forro in the Dark – Forrowest**
Mundo Livre S.A – Dezessete E Setecentos***
Forro in the Dark – índios do Norte**
Naná Vasconcelos e Luis Carlos – Juazeiro***
Luiz Gonzaga – Qui Nem Giló****

* Luiz Gonzaga 50 Anos de Chão 1941-1987- BOX 3 CDs
** Forro in The Dark – Bonfires of São João
*** Baião de Viramundo – Tributo a Luiz Gonzaga
**** Luiz Gonzaga Volta pra Curtir: ao Vivo

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4 comentários

  1. denilson says:

    gostaria de ter algumas cópias de musicas de luiz gonzaga o nosso eterno rei do baião

  2. Dj Beth says:

    mutio bom seu site.

    O programa da musica internacional-musica eclectica. Todas terças das 10:00 da manhã até 12:00 na Radio Panorama FM 88,3. Conferi!

  3. Ebite says:

    Vou usar estas letras no meu show. Valeu

  4. Dudu Pontes says:

    Once again listening to the "Pagode Russo" mixtape, a magnificent tribute to Luiz Gonzaga from @carlosfreitas: http://bit.ly/d2Bxx9

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