NOMO: Ghost Rock

Por Carlos Freitas em 2/7/2008 às 12:08 am

Ao mesclar afrobeat, krautrock, funk & free jazz em “Ghost Rock”, seu novo disco, o grupo americano Nomo apontou um novo norte para as vanguardas do groove: a renovação do legado do afrobeat. Irreverente, longe de ser revivalista, o terceiro álbum do octeto de Michigan é de dar orgulho a Fela Kuti, Orlando Julius e Tony Allen, o trio ‘fundador’ deste gênero, um catalisador de contextos musicais.

Nu Tones, segundo álbum do Nomo, lançado em 2007, já tinha dado o recado. Com “Ghost Rock” a banda foi além, ao personalizar as polirritmias caras ao afrobeat. Para tal recorreram ao elemento cultural, ou melhor, espiritual, mais do que ao técnico. Pois, segundo o líder da banda, Elliot Bergman, Nomo significa ‘música que afasta maus espíritos’. Se os abençoa, nos ouvintes causa efeito expansor. Brinda as mentes livres com um coquetel de vários modernos: estéticas que conectam evoluções rítmicas africanas, improvisos do jazz e o ruído das revoluções digitais/eletrônicas. Numa palavra: Afrofuturismo.

“Brainbreeze”, faixa de abertura de “Ghost Rock”, cita o modelo do produtor Brian Eno de harmonizar texturas eletrônicas. Nesse aspecto, de produção musical, ressalta-se o trabalho de Warn Defever. O mentor do His Name is Alive soube explorar o experimentalismo do Nomo. Sentiu-se em casa, uma vez que, com sua banda, já vinha experimentando pop com afrobeat nos álbuns mais recentes. Dentre eles, “Sweet Earth Flower: A Tribute to Marion Brown”, tributo ao saxofonista americano que entortava o jazz com latinidades e “africanidades”.

Como o improviso jazzístico corre nas veias dos integrantes do Nomo, ouve-se, logicamente, em faixas como “Rings” e “Three Shades” nítidas referências a John Coltrane, Miles Davis, Pharaoh Sanders e ainda mais claramente às incursões latinas no jazz promovidas por Dizzy Gillespie. Nada que deponha contra a originalidade do amálgama sonoro do grupo. Só reitera o bom aprendizado da gênese catalisadora do afrobeat, uma virtude do Nomo neste “Ghost Rock”.

Assim, Erik Hall (guitarra), Jamie Register (baixo), Dan Bennett (bari), Justin Walter e Ingrid Racine (trumpetes), Dan Piccolo (bateria), Olman Piedra (percussão) e Elliot Bergman (sintetizadores e saxofone) assumem o papel de exploradores musicais. Se precisam de uma textura para o seu mantra rítmico, movimentam os grooves em direção ao Congo, do Konono nº 1, banda com a qual comungam o fascínio pela produção de novos instrumentos. O jeito Nomo de utilizar os “Congotronics”, tecendo uma rede sônica com choques eletrônicos e toques mbira elétrica, tornam “All The Stars” e “Round The Way” atalhos para o futuro um dia arquitetado por Sun Ra.

Sonoridades sobrepostas; melodias gentis, profusão de batidas e instrumentos; instrumental que dispensa palavras, literais de fato. Um quê de contemporâneo. Sons alheios a padrões. “Ghost Rock”, a música, veio das rachaduras do pós-punk. Já “My Dear”, que antecede a faixa título, resgata a blaxploitation com a precisão matemática dos pós-rock. Na seqüência, a quebradeira de “Last Beat” finca nossos pés no chão para dançarmos uma homenagem ao afrobeat, babel de todos os ritmos.

Junto a bandas e projetos como Antibalas, Chicago Afrobeat Project, The Budos Band, Chico Mann, entre outros, o Nomo integra um pólo musical nos EUA que regado a afrobeat é capaz de unir periferias às extremidades culturais e musicais do planeta. De certa forma, involuntária até, reacende-se na América o ideal libertário panafricano, em termos políticos. Algo que Fela Kuti, com seu senso visionário, prenunciou: “música é a arma do futuro”.

Nomo: Ghost Rock
01. Brainwave
02. All The Stars
03. Round The Way
04. Rings
05. My Dear
06. Ghost Rock
07. Last Beat
08. Three Shades
09. Nova

Para ouvir, baixar músicas e saber mais sobre Nomo:
Site Oficial | Gravadora Ubiquity | MySpace | LastFM | Blogosfesra

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Comentários

2 Responses to “NOMO: Ghost Rock”

  1. Valdemar Almeida on August 19th, 2008 7:53 am

    Há uns dois anos, os Konono No.1 fizeram-me olhar com mais atenção para a música que se vai fazendo em África. Foi por isso com muito prazer que li a tua crítica ao novo disco do projecto Nomo que vai buscar influências às linguagens de raiz africana. Aqui fica o link de um projecto que segue um pouco a mesma linha, o Chicago Afrobeat Project: http://chicagoafrobeatproject.com/. E para ouvir boa música africana, vale a pena dar um salto a http://cotonete.clix.pt/ouvir/radios/tematica.aspx?id=26

  2. Rodrigo Bap on August 30th, 2008 7:12 pm

    Não conhecia. Baixei e me encantei. Sensacional. Obrigado por enriquecer meu horizonte musical. Abraços.

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