Soy Impop
Por Carlos Freitas em 25/6/2008 às 2:04 am
Sob inspiração da história e das imagens do filme “Soy Cuba”, a versão 3.0 do Impop chega à “impopsfera”, com o compromisso de ser duradoura e contínua, como um plano-seqüência do cinema.
Como se auto-explica, o plano-seqüência é uma seqüência sem cortes realizada em um único plano. Focando a minha consciência, ilustra um sonho de continuidade. Algo que sempre projeto. Ah como eu queria ser capaz de me manter ligado, sempre com o controle da ação.
Hitchcock fez um filme inteiro assim: Festim Diabólico. Antonioni também o fez para dialogar com morte no brilhante desfecho de “Passageiro - Profissão Repórter”. Lembro do “Espelho” do Tarkovsky. Da “Arca Russa” do Sokurov. Mas foi “Soy Cuba”, do russo Mikhail Kalatozov, que me tirou da “sinapse” letárgica. O filme é um exemplo clássico de obra Impop, pela sua difícil relação com interesses que vão além do compromisso com a sensibilidade da criação autoral.
Produzido para ser peça de propaganda comunista, à época para difundir a adesão da Cuba de Fidel à União Soviética de Kruchev, o filme não sensibilizou os camaradas, apesar do estilo cinematográfico à soviética – o realismo soviético - e eficaz demonstração das mazelas capitalistas que sugavam a alma de Cuba.
Após permanecer nas prateleiras do esquecimento durante cerca de 30 anos, “Soy Cuba” foi redescoberto e levado às telas por Martin Scorcese e Francis Ford Coppola. Porém, acredito que seja o tempo o maior curador desta obra prima. Coube a ele depurá-la, reconhecê-la como política, cultural. Mais importante: livre das amarras ideológicas, de qualquer ditadura de mercado – atualizando para estes tempos.
Não à toa, portanto, foi conferido a Mikhail Kalatozov o status de mestre. Ele que faleceu em 73 levando consigo a amargura do ‘fracasso’ de “Soy Cuba”.
Sob inspiração da história e das imagens do filme “Soy Cuba”, está dada partida da edição 3.0 do Impop. Com o compromisso de ser duradoura e contínua, como alguns destes planos-seqüência históricos do cinema.
Um dos planos-seqüência antológicos do filme “Soy Cuba” começa no teto do Hotel Capri, de posse da máfia americana, e termina com um mergulho na piscina do hotel ocupada pela burguesia cubana da era do ditador Fulgêncio Batista. Esse caráter orgiástico, digamos, pode ter sido o ponto de inspiração para a famosa cena da festa na piscina do filme “Boogie Nights”, de Paul Thomas Anderson, outro mestre em planos-seqüência, diga-se.
Bom, um dia, quem sabe, posto o trecho da seqüência com a trilha original. Cansei de procurá-la em vão no YouTube. Mas vale a pena conferir esta que postei. Porta o espírito transformador destes tempos: foi adaptada com a música “I Can’t Keep From Crying Sometimes”, de Dierdre Wilson Tabac, banda de funk/soul setentista que aqui elabora uma matadora levada jazzística na base de um complexo 6/8.






Comentários
Tem algo a dizer?