O tempo do blues

Por Carlos Freitas em 5/1/2008 às 8:53 am

Robert Crumb - Blues
O encontro de Robert Johnson com Charley Patton, por Robert Crumb. Duas lendas. Essenciais para entender o espírito inquieto do blues

Ano novo, vida nova. Chega de dar tempo ao contratempo. Está mais do que na hora de fazê-los, tempo e contratempo, convergir como elementos da harmonia musical que são. Posto isso, uma desculpa e agradecimento aos que visitaram o blog durante minha hibernação, retomo a saudável rotina errante dos impopulares: o bom e velho desafio aos padrões e a eterna sujeição às revoluções do bem! Impop reloaded!

Como o tempo é a pauta seria justo falar sobre Radiohead, cujo conjunto da obra é hoje sinônimo de presente e futuro. Mas, permitam-me, Thom Yorke e cia, vou provocar o futuro com uma dialética que lhe diz respeito: do velho novo, do novo velho. Uma provocação que está na obra de Robert Crumb, do qual pinço da minha prateleira o primoroso livro “Blues”. Como diz a nota da edição, é “para aqueles que acreditam que a música existe para além da parada de sucessos”. Crumb é impop! Aqui vai, portanto, uma homenagem ao mestre!

Além de cartunista e historiador, Crumb é um manipulador do tempo. Usa sua linguagem incorformada para oprimir o ímpeto destrutivo do passar dos anos que apaga memórias e arranca coragem das vísceras. Crumb mostra como devemos ser autores do nosso tempo.

Blues, de Robert Crumb A edição nacional de “Blues” foi lançada no Brasil pela Conrad. É homenagem ao blues, à “música dos antigos”, de uma época em que vender alma ao diabo não significava se render às futilidades da indústria cultural. Sim, também elabora crítica caústica, rica em humor irônico, às evoluções comerciais da música popular.

O livro, que compila HQs, capas de discos, cartazes e filipetas do gênio do quadrinhos, indaga o blues como expressão artística libertária. Restaura cenários e resgata idéias adormecidas pelo tempo para aplicá-las hoje. Não à toa Crumb é considerado um revolucionário: suas idéias vivem em ação. São trazidas do canto mais remoto da memória, mesmo se lá jogadas, embriagadas por falências e fraquezas. Coisa de poeta de maldito.

A obra de Robert Crumb não vive sem o blues, como o dadaísmo sem a arte, o popular sem o impopular, o tempo sem contratempos. Assim nos transporta para os anos 20 do século passado. Para uma encruzilhada do Delta do Mississipi, onde vive o demo que pactua com os bluesmans, ponto de encontro de Robert Johnson e Charley Patton. De lá ouvia-se um ranger abrasivo em forma de lamento e com energia transformadora.

Robert Johnson e Charley Patton. Dois bluesmans. Duas lendas. Figuras essenciais para estender o espírito inquieto do blues para estes tempos. Patton, para Crumb, foi o professor de Howlin´n´ Wolf, Son House, Tommy Johnson e, claro, Robert Johnson. Todos iam aprender com aquele “vadio, um vagabundo incorrigível”. Patton “era sustentado por mulheres e passava seu tempo no ócio completo”. Para o herói de Crumb, o blues era um estilo de vida.

Através da música, do blues, rompendo qualquer barreira entre tempo, vanguarda e realismo, Crumb remonta o ambiente das plantações nas terras de aluvião do Delta do Mississippi. Lugar de sobrevivência de descendentes de africanos escravizados. Aquele lugar remoto da consciência americana passou a ser uma fonte perene de irrigação e fertilização das mentes musicais inquietas.

O encontro de Robert Johnson com Charley Patton no livro Blues, de Robert Crumb
O aprendizado do blues nas crossroads do Mississipi.

Blues também reconstrói a década de 20 do século passado. Época de muitas revoluções. De aplicação verbal no infinito. O blues nascia para permanecer como representação libertária; os surrealistas libertavam as forças revolucionárias da criação; a vanguarda soviética, de Maiakovski, alinhava com os futuristas sem dissociar arte da vida. Futuristas também foram os modernistas do Brasil que refundaram a arte brasileira naquela semana de 22, entre os dias 11 e 18 de fevereiro.

Sim, hoje vivemos um outro tempo. O mundo inchou, progrediu. Virou tecnológico. Continua, porém, cavando o abismo da desigualdade. Mas as vanguardas continuam dispostas ao triunfo (alô, Radiohead). Partem para o confronto, mixando conceitos, deprezando figurinos, compartilhando, multiplicando idéias alheias aos espetáculos de futilidades corporativas. A visita ao Delta do Mississippi, a Mali, ao Chão de Estrelas de Paulista, Olinda, é necessária para decifrar ou recodificar a função da arte na vida.

Quando Crumb descreve Charley Patton diz que a música dele “não pode ser descrita de maneira alguma. Ela precisa ser ouvida”. Então, direto de algum quarto de hotel do Delta do Mississippi, para marcar (e celebrar) uma travessia inspiradora para este 2008, mando a primeira “Seleta Impop” do ano: O Tempo do Blues.

“High Water Everywhere Pt. 1″ - Charley Patton
“Traveling Riverside Blues” - Robert Johnson
“You Can’t Lose What You Ain’t Never Had” - Muddy Waters
“Down Child” - John Lee Hooker
“Mali Dje” - Ali Farka Toure
“Chasin’ Rainbows” - Robert Crumb & His Cheap Suit Serenaders

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Comentários

One Response to “O tempo do blues”

  1. Terra on April 23rd, 2006 10:11 am

    Maravilha de texto, Charlez

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