Ritmo, poesia e revolução: as sementes de Bob Marley

Por Carlos Freitas em 11/5/2007 às 11:58 pm

Bob Marley and the Wailers

Celebração, em geral, não é a palavra ideal para representar um aniversário de morte. Mas nesse 11 de maio o mundo (im)pop celebra sim a data, em nome da carreira de Bob Marley. Uma memória revolucionária.

Há 26 anos, em 11 de maio de 1981, Bob Marley morreu prematuramente aos 36 anos, vítima de câncer, em Miami. Através de sua obra, plantou sementes de uma revolução musical a partir de uma poética de conteúdo social libertador, pan-africanismo e do reggae. Assim, com identidade soberana, colocou a Jamaica no mapa da música mundial.

A sua obra está na praça, nos cantos do mundo carburada, dissecada e repercutida através de relançamentos de seus discos, arquivos MP3 compartilhados em profusão, biografias.

Sempre vale a pena a leitura da biografia “Queimando Tudo”, do jornalista americano Timothy White, audições da coletânea “Natural Mystic – The Legend lives On”, da caixa de CDs “Songs of Freedom” ou da coletânea “Bob Marley And The Wailers One Love”, que diagnostica as evoluções do rhythm ‘n’ blues, doo wop e ska para o reggae e desconstrói em bolero “And I Love Her”, dos Beatles. Documenta o período do The Wailers com Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer na gravadora de Coxsone Dodd.

Melhor mesmo, contudo, é se lançar sobre os discos de Bob Marley & The Wailers. Discografia que foi estabelecida como objeto de culto pela crítica musical e fãs por um motivo simples e, digamos, subentendido – compreender Bob Marley não difere de descobrir como devemos nos posicionar como seres atuantes. Eu mesmo, sempre que ouvia os discos de Marley, sentia que poderia pensar e agir melhor. Mudar a ordem das coisas, como fez Bob Marley nas “trenchtowns” da sua Jamaica.

Com notável precisão, aparentemente impossível, a música de Bob Marley abordava o confronto como estética: organizava métricas poéticas, rítmicas e melódicas divergentes. Algo genuinamente africano, pela fluência rítmica. Mais do que reggae, uma experiência revolucionária.

Veja Bob Marley & The Wailers ao vivo tocando a clássica “Africa Unite”

Burnin’, o legado

Estilo, ideal e moral que sempre iluminam este mundo de sombras ideológicas, eis com se manifesta o legado de Bob Marley o qual celebro aqui em sua homenagem. Assim o encontramos, além do seu legado de sangue, os irmãos Ziggy, Stephen e Damien Marley, na cultura do remix, nas evoluções do dub que reviraram os conceitos de autoria, revolucionando o meio musical e de composição.

Um legado em constante mutação, democrático e dado aos novos sons do mundo que encontra um libelo nas experiências processadas em suas músicas por Bill Laswell no CD “Dreams of Freedom”, lançado em 97. O disco expressa, usando o dub como linguagem, a obsessão de Bob Marley por explorar as possibilidades rítmicas entre a bateria e o baixo.

O Drum ‘n’ bass, entre outros dos tantos gêneros surgidos nas vanguardas eletrônicas, é uma das crias legítimas do dub jamaicano difundido pelo mundo através das parcerias de Bob Marley com Lee Perry em músicas como Duppy Conqueror, Small Axe, Soul Rebel, Nice Time, definidoras dos rumos futuros do reggae e do dub. São entidades derivadas das idéias dos “pais” destes gêneros.

Para Bob Marley ritmo também era mensagem. Justificasse, assim, sua obssessão por instrumentos de percussão. Quando esteve no Brasil, em 1980, adquiriu quilos de atabaques, cuícas, ilús etc. Chegou a declarar numa entrevista para a conceituada revista Beat que o reggae e o samba eram irmãos de sangue.

Por isso, arrisco dizer, que seria com o jeito brasileiro de fundir ritmos e sonoridades descendentes da áfrica com os sons do mundo que Bob Marley, se vivo, estaria envolido. Talvez pilotando um soundsystem em Belém, produzindo Marcelo D2 e Rappin’ Hood ou confabulando com a Nação Zumbi.

Burnin’, o disco

Burnin’ Bob Marley Sou daqueles tantos que consideram “Burnin’” o melhor disco de Bob Marley & The Wailers. Lançado em 1973, apenas seis meses após a fornada de “Cath a Fire”, tem tensão revolucionária e criativa. Nesse aspecto, como uma conseqüência normal do conflito de talentos. O disco que colocou nas ruas do planeta “I Shot Sheriff” e “Get Up, Stand Up” também revelou definitivamente os talentos artísticos de Bunny Wailer e Peter Tosh. Para muitos, era um desperdício Bob, Bunny e Peter juntos numa banda só. O dito só faz sentido se para justificar o racha que se deu logo depois, em 74. Mas os três juntos tiraram de seus dreads pérolas da música pop em Burnin.

Bunny (Neville Livingston na época), irmão mais chegado de Bob Marley, colaborou com “Hallelujah Time” e “Pass It On”. São daquelas músicas que promovem resposta física à arte. Poéticas em todos os aspectos, da sutilidade com que os ritmos se confraternizavam em suas harmonias até os falsettos entoados por Bunny como se estivesse cantando pela garganta de Curtis Mayfield e Otis Reeding.

Peter Tosh colaborou com “One Foundation”. Os poucos segundos de alegorias psicodélicas da sua na introdução já foram suficientes para identificar seu toque autoral. Prenunciou as chamas de “Legalize it”, seu disco de estréia lançado em 76. Sem contestar a qualidade das canções que renderam recorde de vendas na Jamaica, o mérito do disco foi ter sido motivador da fundação da banda “Word Sound and Power”, que revelou dois gênios dos grooves: Sly Dunbar e Robbie Shakespeare.

Enfim, Burnin acendeu a tocha do inconformismo que gera idéias e libertação. Naquela época de ressaca do hippismo, Bob Marley & The Wailers fizeram um atestado da saúde revolucionária da música.

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Comentários

5 Responses to “Ritmo, poesia e revolução: as sementes de Bob Marley”

  1. sheila on August 1st, 2008 8:35 pm

    bob marley e o melhor

  2. Zaíra on August 3rd, 2008 5:15 pm

    “Há uma complexa constelação no céu onte até hoje brilha a estrela de Marley!!”

  3. evandro on September 13th, 2008 11:19 pm

    bob marley nao morreu foi pra casa

  4. tamires santos on October 5th, 2008 12:43 pm

    bob marley ..não só foi como sempre será um dos grandes petas desse mundo..espero q suas letras possam ser refletidas sempre como instruções de vida , o amor, a liberdade ,a natureza ,a felicidae. E que sua alma sempre sirva de exemplo para todos nós como poeta , heroi, e como um grande home………….love reggae…..♥

  5. JUNINHO on October 6th, 2008 9:16 pm

    EM FORMA DO BEM EU FICO TAMBEM 100 GUERRA MOSTRARAM AO MUNDO QUE É POSSÍVEL LUTAR 100 ARMAS NEM AGRESSÕES COM UNIÃO E FOCADO AO ÚNICO DEUS QUE LIBERTA E NOS APRESENTA O REI DO REGGE .VALEU

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