Manifesto contra o trabalho

Por Carlos Freitas em 1/5/2007 às 11:59 pm

Dia do Trabalho
Arregaço as mangas para somar o manifesto Impop às manifestações deste 1º de Maio, dia em que se celebra as conquistas dos trabalhadores e renovam-se o fôlego da luta por novas causas libertárias e a necessidade de erradicação do vergonhoso e crescente trabalho infantil no mundo, entre outras barbáries oriundas da crise do trabalho.

E não falo em crise gratuitamente. Das notícias que li hoje sobre o Dia do Trabalho esta me chamou atenção: PC chinês muda o conceito de “trabalhador” na festa de 1 de Maio. Dela cito o seguinte trecho:

O artigo afirma que “a imagem do trabalhador está sofrendo uma drástica mudança” e que “cada vez mais, entre os jovens, ser um trabalhador significa um fracasso na vida”. A preocupação do partido se justifica pelo resultado de enquetes recentes. No coração comercial e financeiro do país, Xangai, só uma de cada mil crianças quer ser operário quando crescer.

Assim, como se vê, gradualmente desmantela-se a ideologia do trabalho (tal como instaurado no mundo capitalista - à base da opressão), engendrada como religião, sustentada em dogmas e alimentada de um catecismo radical. Sensação de lavoura arcaica.

O estrago, contudo, já é grande. Já não é tão clara em nossas mentes a noção de importância daquilo que produzimos e da representatividade do trabalho para as nossas vidas, tamanho o alheamento que se dá na relação homem-trabalho. Nestes tempos de desemprego crescente, então, passa a ser incógnita a certeza de que precisamos trabalhar para viver. O direito à vida parece não integrar o código de leis que regem o trabalho moderno.

MAnifesto contra o trabalho Eis que assim chego ao “Manifesto contra o Trabalho”, já abordado aqui no blog e, para ocasião, devidamente reciclado. O livro foi lançado em dezembro de 99 pelo grupo Krisis, de críticos sociais pós-marxistas, do qual fazia parte Robert Kurz, sociólogo alemão. Manifesto contra o Trabalho pode ser lido pela web. Nas prateleiras, encontra-se a edição brasileira, via Conrad – série Baderna.

Um manifesto Impop, sem dúvidas, do qual cito algumas linhas: “(…)A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e está sendo jogado no aterro sanitário social. Quem não trabalha, não deve comer! Este fundamento cínico vale ainda hoje - e agora mais do que nunca, porque tornou-se desesperançosamente obsoleto(…).”

Revolucionária, tanto quanto polêmica, a obra coloca o trabalho como meio de opressão e não de libertação. Alerta para a necessidade de se buscar idéias e ações que suportem a vida, acelerem os acontecimentos para lugares subjetivos, distantes dos espaços regulados pelas corporações.

Assim como fazem os sambistas que metrificam seus objetivos pelo custo da felicidade, bem ao estilo Impop deste blog ser, trago de volta à superfície blogueira um manifesto musical apropriado para a ocasião em forma de samba, punk, rock e afrobeat.

É a Seleta Impop “Trabalho Vadio”

Enquanto você ouve, sigo a vadiagem produtiva comentando as musicas:

Não dá falar sobre combate ao trabalho sem cair no samba de bambas como Noel Rosa, Wilson Batista. Eles colocaram na roda a angústia opressora do trabalho remunerado e fizeram da ode à malandragem um manifesto libertário, além de panfleto precioso contra o batente operário.

A clássica Lenço no Pescoço, hino da malandragem, composta por Wilson Batista, vai ao ponto: “Meu chapéu do lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco e desafio/ Eu tenho orgulho/ Em ser tão vadio./ Sei que eles falam/ Deste meu proceder/ Eu vejo quem trabalha/ Andar no miserê/ Eu sou vadio/ Porque tive inclinação/ Eu me lembro, era criança/ Tirava samba-canção”.
Versão por Roberto Paiva e Jorge Veiga gravada no disco Noel Rosa x Wilson Batista, Studio Hara - 1974

Chico Buarque, autor da também clássica Homenagem ao Malandro, não ficaria de fora da nata da malandragem. Ele manda o recado com Vai Trabalhar Vagabundo, tema do filme de mesmo nome, dirigido por Hugo Carvana, lançado em 1973: “Vai trabalhar, vagabundo/ Vai trabalhar criatura/ Deus permite a todo mundo/ Uma loucura” (…) Pode esquecer a mulata/ Pode esquecer o bilhar/ Pode apertar a gravata/ Vai te enforcar/ Vai te entregar/ Vai te estragar/ Vai trabalhar”

Letrados e ilustres, os da bossa nova não levaram para suas dissonâncias as mazelas do trabalho. Maria Moita, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, foi exceção. A música composta para a peça teatral Pobre Menina Rica, em 1963, teve sua execução proibida pelos generais da ditadura militar.

Aqui no Impop, com a doce voz de Nara Leão, os versos da canção ressoam e fazem um ajuste de contas:
“Deus fez primeiro o homem/ A mulher nasceu depois/ Por isso é que a mulher/ Trabalha sempre pelos dois./ Homem acaba de chegar/ Tá com fome/ E a mulher tem que olhar pelo homem/ E é deitada, é em pé/ Mulher tem é que trabalhar./ O rico acorda tarde/ Já começa a rezingar/ O pobre acorda cedo/ Já começa a trabalhar./ Vou pedir ao meu babalorixá/ Pra fazer uma oração pra Xangô/ Pra pôr pra trabalhar/ Gente que nunca trabalhou.”

É, Roberto, Simonal e Wanderley, até a boa vida da jovem guarda montada em suas guitarras, carangos e aventuras pelas boas moças da praia não escapou das garras do trabalho duro. Carlos Imperial e Nonato Buzar explicaram tudo pela voz de Erasmo Carlos, em Carango: “Ninguém sabe o duro que dei/ Pra ter fon-fon, trabalhei, trabalhei”.

João Gordo e os seus Ratos de Porão azeitam a receita do manifesto com Pare de Trabalhar: “pare de trabalhar/ Venha nos ajudar a guerrear/ você também tem que lutar”.

Mas a “alma do trabalhador é como um carro velho, só dá trabalho!”, como já dizia um velho casca, na música Bola do Jogo, do Mundo Livre s/a, de Fred Zero Quatro. Então a saída é a Livre Iniciativa, um “trabalho novo”. A dobradinha do Mundo Livre s/a marca presença para revisar os conceitos da malandragem, retirada do clássico CD “Samba Esquema Noise”.

Para Lou Reed não tem jeito. Do lado selvagem da vida não há espaço para conversa sobre trabalho: Please Don´t Talk To Me about Work.

Rumamos agora para os fonogramas da industrial Manchester, repletos de ironia e poesia fina que faria os vermelhos alemães sorrirem, mesmo com os tons melancólicos que só Morrissey e seus comparsas The Smiths foram capazes de compor: “I was looking for a job and then I found a job, and heaven knows I’m miserable now.” Pinçada de Heaven Knows I´m Miserable Now.

Para finalizar, é obrigatório chamar Fela Kuti, que instituiu a sua revolução panafricana com a pluralidade de seus ritmos, sons e palavras. Fez da sua ideologia seu trabalho e da desobediência civil sua plataforma de idéias libertárias. Impop traz dos versos de Perambulator uma amostragem do discurso do “presidente” Fela Kuti:
“They will give him a certificate, to work as an employee/ They will give him a certificate, to make him a civil servant/ They will give him a certificate, to make him a certified slave”.

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Comentários

3 Responses to “Manifesto contra o trabalho”

  1. Mariana on May 8th, 2007 8:23 pm

    parabéns pelo blog, muito bom o conteúdo.
    os posts sobre copyright ajudaram-me a saber mais e a conhecer o creative communs.
    sucesso!

  2. Carlos Freitas on May 10th, 2007 1:54 pm

    Obrigado, Mariana! Quanto mais gente difundindo e pondo em prática o conceito creative commons, melhor! Seja bem-vinda! :)

  3. È Criacuervos, baralho!!! on June 15th, 2007 11:59 am

    trabalhar é uó !!!

Tem algo a dizer?