As trilhas de Naná

Por Carlos Freitas em 10/4/2007 às 11:55 pm

Naná Vasconcelos

O músico pernambucano-do-mundo comemora 50 anos de carreira com o lançamento do disco “Trilhas”, um apanhado de temas autorais que compôs para filmes, espetáculos teatrais e de dança.

Naná está mesmo em todos os lugares onde se respira arte: cinemas, teatros, palcos. Aos 62 anos, liga pouco para o avançar do tempo. Só quando tempo, como elemento de composição, foge de suas mãos. Algo improvável para aquele que é considerado um dos mestres da arte de percutir sons, seja através de instrumentos de percussão, voz e até mesmo extraindo música de seu próprio corpo. Uma relação simbiótica revelada no álbum Amazonas, lançado em 83, um marco na história da música brasileira.

A obra de Naná é um acervo de inventividade. Seja pelas suas composições ou pelos batuques que desdobra através de sua extensa fauna de instrumentos, com acento tônico para o uso que faz do berimbau, instrumento que ensinou o mundo a admirar.

Não seria exagero dizer que Naná Vasconcelos ancora hiperlinks para a história da música popular do mundo, tamanha versatilidade com que compõe, como se por obra do acaso, os ritmos que a vida coloca em sua frente para serem orquestrados.

O status de maestro, por sinal, o próprio Nana assume de forma descompromissada: “costumo dizer que toco mais quando não toco”.

Impop seguiu as trilhas de Naná e o encontrou para um bate-papo. Definindo seu samba como africano, Naná Vasconcelos falou, entre outras coisas, sobre a sua rara arte de compor, sua relação com a nova cena musical brasileira; mostrou-se simpático à revolução digital e ao compartilhamento de músicas pela internet - disponibilizou “Nizinga (com ritmo)” - e, claro, brincou com o tempo. Confira a entrevista.

Há alguma diferença entre a parceria musical com músicos e diretores de cinema, teatro e espetáculos de dança?
Naná: A inspiração é realmente diferente em cada situação. Mas, por exemplo, com o letrista, eu preciso visualizar qual o cenário que a letra sugere. Já para coreografias e cineastas eu fico mais atento nos intervalos, dou valor para o silêncio. Isso significa que, ás vezes, não toco, para valorizar a imagem. Costumo dizer que toco mais quando não toco (risos).

Você acredita que sua música sugere ou é influenciada por imagens?
Naná: Busco no som que ele mostre as imagens. Acredito no potencial que existe na música. Quando digo: vamos para a selva, quero levar você pra lá. Tudo é sempre uma busca.

Em Trilhas notei que o samba domina boa parte das composições, com elementos pouco comuns, contudo. Guitarras, intervenções de cordas, recursos percussivos eletrônicos. Mas em músicas como “Nizinga” e “Roda Moinho” notei uma influência do ambiente nordestino. Como você vê a renovação do gênero? Passa pelo nordeste essa renovação?
Naná: O samba que faço é muito mais africano. O nordeste tem grandes compositores de samba. Não é o sambista clássico, como estamos acostumados a pensar quando falamos no assunto, com características do samba do Rio. É outro formato. O Jackson do Pandeiro, por exemplo, faz um samba “aforrozado”. O Gordurinha é outro exemplo bacana. O vocabulário, o ambiente é outro. É mais sincopado no canto que no instrumental.

Você vê a cena pernambucana como um espaço de forte identidade cultural mas de linguagem internacional?
Naná: Concordo. Em Pernambuco acontece uma arte que só tem lá. O nosso Estado deu uma África que só deu lá, entende? E ai temos que lembrar de Chico Science que misturou o sons de Pernambuco com hip hop, por exemplo. O Lenine também é um músico interessante, que mexe com coisas diferentes. Enfim, os alternativos.

Você sempre foi reverenciado por novos artistas pernambucanos. Tem até uma relação artística com Otto e Cordel do Fogo Encantado. Como você vê a cena musical atual?
Naná: O Otto fez uma música pra mim, não é? Que meu celular é a Lua (risos). Dirigi o primeiro disco do Cordel. Tem tantos, Nação Zumbi, Mobojo. A miscigenação que existe no nordeste é muito rica. Muita variedade. Eu sempre agradeço e reverencio toda essa miscigenação. É a isso que me apego quando estou mostrando meu trabalho de brasileiro fora do país.

E do cenário musical pernambucano, quais artistas você destaca?
Naná: Os que estão a vir!! (risos)

Noutro dia encontrei alguns albuns raros do Naná em blogs da internet. Como você encara a revolução da música digital? Como lida com essa questão de direito autoral, quando está em jogo a divulgação de músicas através do compartilhamento de músicas pela internet?
Naná: Isso é um beco sem saída. É o resultado da revolução tecnológica, que possibilita uma certa invasão de privacidade. Já que estão escutando minha música aleatoriamente, eu que crie outras novas, que invente mais (risos). Isso me incita a criar coisas novas. Não vou vencer essa luta!

Você acredita que trilhas para espetáculos teatrais, de dança e filmes são caminhos mais curtos para divulgação de músicas sem apelo comercial?
Naná: Acho que uma coisa não tem exatamente relação com outra. Minha música nunca é feita pensando em apelo comercial. Para mim, música e dignidade andam juntas. Mas posso dizer que prefiro fazer uma música para um filme, no lugar do diretor pegar uma música minha, de um CD, e colocar no filme, por exemplo.

E sua carreira internacional, como anda? Ainda mais forte do que no Brasil?
Naná: Vejo isso diferente. No Brasil, eu gosto de procurar oportunidades para mostrar meu trabalho para a juventude que nem tinha nascido quando eu saí daqui para morar fora. E no exterior, prefiro ir trabalhando com projetos diversificados, com vertentes que ainda não experimentei. Procuro a diversidade. Quando eu saio daqui, preciso que haja desafio, para que eu experimente coisas novas. Lá fora, eu sou um músico brasileiro, que leva o verde amarelo para se misturar com outras coisas.

Datas: 50 anos de carreira e 35 anos do lançamento do primeiro disco (Africadeus). Com um trabalho incansável de pesquisa de sons, produção de novos artistas e trabalhos sociais de inclusão social através de inclusão musical, você se sente realizado ou ainda está em busca de algo?
Naná: Sempre estou buscando algo. Isso não pode parar de acontecer, se não, perde a graça, a motivação. Quanto às datas, cada vez mais percebo que prefiro que as pessoas saibam que tenho 62 anos e eu olhe no espelho e me sinta e me veja com 26. (risos).

Confira Naná Vasconcelos em ação ao lado de John Lurie (Lounge Lizards), com quem assinou a trilha do filme Down By Law (1986), de Jim Jarmush.

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