LCD Soundsystem - Sound of Silver

Por Carlos Freitas em 21/1/2007 às 6:26 pm

É com música cerebral para dançar que o festival de sons 2007 começa a fazer barulho. Esse é o recado de Sound of Silver, do LCD Soundsystem, o melhor disco do ano, até agora. Para tão antecipada eleição contribui a autenticidade com que o grupo novaiorquino processa seu ritual dançante: músicas com abordagem política que não abdicam de prazeres digitais, intelectuais e orgânicos.

Com o disco, previsto para ser lançado em 20 de março, porém disponível em blogs e P2Ps da rede, reata-se definitivamente a relação entre o rock e a música eletrônica. Já se ouvia da new rave e do pós-rock – IDM por tabela – o clamor das guitarras pelas farras irreverentes dos sons das máquinas.

Quando “Get Innocous”, que abre Sound of Silver, extrai suor do corpo, e isso não demora, retoma-se a trilha evolutiva das desconstruções do pós-punk maquinadas pelos “curadores” do rock atual: Kraftwerk, Gang of Four, P.I.L, Talking Heads e Happy Mondays. Grupos que sacolejaram trincheiras culturais fazendo do conflito entre sentidos e sons um convite à dança.

A citada primeira faixa paga tributo a Brian Eno. Reprocessa a arquitetura art-rock que ele criou nos discos da famosa trilogia da fase alemã de Bowie (Low, Heroes e Lodger) e, principalmente, a atmosfera futurista-deprê dos soberbos Fear of Music (79) e Remain in Light (80), do Talking Heads. Já com os versos declamados de “Sound of Silver”, a faixa-título, ecoa a militância do Gang of Four, a reboque de oscilações entre krautrock e space-funk.

As referências explícitas aos pais do pós-punk não desqualificam a autenticidade do LCD Soundsystem. “Time To Get Away” (matadora), “North American Scum”, “Us v Them”, “Watch The Tapes”, por exemplo, reabrem as infecções causadas pelas viróticas “Losing My Edge”, “Daft Punk is Playing in My House” e “Yeah!”, entre outras do primeiro álbum homônimo, de 2005. Se na pista causam danos físicos, na mente formulam inconformismo (contra a política americana).

E o efeito infeccioso só aumenta com o conhecimento do campo de ação, clubes e ruas que se manifestam com o desafio de limites e culto à mestiçagem. É assim que novos organismos musicais proliferam no acervo LCD/DFA,, gravadora-laboratório de James Murphy, o cabeça dessa ladainha toda. O Multiinstrumentista e produtor assume o LCD Soundsystem como banda de remixers para instrumentar o fluxo permanente de apropriação e reapropriação de sentidos embutido na cultura do remix, a destes tempos de independência. “Stop Making Sense“, como já cantou certo David Byrne enfiado em um paletó extra-super-large.

As nove músicas de Sound of Silver são dádivas de sintetizados que recombinados exploram possibilidades estilísticas e rítmicas do rock digital. Há, contudo, a melodia entre a alma e o silício. “Someone Great” confirma. Não por acaso, “All My Friends” complementa a sensibilidade pop das máquinas. Parece feita por encomenda para tempos mais inspirados do New Order, embalada com a paixão por Velvet Underground e Giorgio Moroder.

Tal panacéia de todos os ritmos e sons, eletrônicos e orgânicos, pára no noise-blues “New York I Love You”. Uma dose terminal de sarcasmo que surge para encarar e alterar a dura realidade da Big Apple: New York i love you, but you bring me down (…) but you’re freakin’ me out.

Com Sound of Silver o LCD Soundsystem catalisa o espírito inquieto das vanguardas, sente o ritmo da história para transformá-lo em dança dos subterrâneos. Hoje responde como entidade da contracultura pop.

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