Impop 2006
Por Carlos Freitas em 31/12/2006 às 3:36 pm
Muito à vontade com a decadência da indústria fonográfica e a revolução midiática, Impop elege os seus prediletos do ano.
E que belo ano, levando em conta os rumos independentes que o mundo da música enfim tomou. Com a produção e divulgação nas mãos dos artistas e crivo por parte de quem ouve, o horizonte musical foi tomado de novos e bons sons, tendências e estéticas. O lugar comum anda rumando para bem longe de nossas vidas.
Por isso a tarefa de eleger os melhores do ano foi divertida, embora difícil. A eleição foi completamente subjetiva, assumo. Também passível, como toda lista é, de exclusões. Derivou num caldo de sabor diferenciado, com gosto de novidade.
Bem, vamos lá, pois 2007 está aí. Que ele venha quente porque a gente está fervendo!
1 Tom Zé - Danç-Êh-Sá
O disco do ano para Impop é um chamado ao conflito. O “complicador da Tropicália”, segundo Caetano Veloso, lançou o independente Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício para propor uma estética musical que não se encerra em palavras e no formato canção. Reuniu ritmos e sons, análogos e digitais, folclóricos e globais para elaborar um discurso sobre inquietação e revolta. Assim, Tom Zé, aos 70 anos, e com todo vigor criativo, dá um recado à juventude muda, que não quer pensar.
2 Gnarls Barkley - St. Elsewhere
“Maybe we’re crazy? Probably!” No futuro, o verbete dedicado ao ano 2006 virá com Crazy embutido. Danger Mouse e Cee-lo Green talharam a cara musical do século XXI atualizando, com os bits dos novos tempos, a vocação pop da música negra. O coquetel de soul hip-hop downtempo, electropop (cover definitiva de “Gone Daddy Gone”, do Violent Femmes), e até pós-punk é remix do mainstream que Danger Mouse já tinha manipulado com o Gorillaz. Gnarls Barkley é uma unanimidade para o pop!
3 Cordel do Fogo Encantado – Transfiguração
Cordel é ritmo & poesia, violão & percussão. Não se restringe, porém, às métricas do repente e à poética nordestina, muito menos a coco, baião, rock, rap, fusão. Com menos teatro e mais melodia, o terceiro disco do Cordel mostra que a banda de Arcoverde, sertão de Pernambuco, segue cantando os sertões do Brasil fazendo em cada toque, acorde, palavra gritada, um recital à liberdade.
4 TV on the Radio - Return to Cookie Mountain
Eles deram ao ruído uma melodia: soturna, brilhante, harmônica. Ao ritmo, todos os tempos necessários para o soul colocar o rock na roda. O terceiro álbum do quinteto do Brooklin nova-iorquino mostra para meio mundo do rock que a cópia não vale a pena. Com um som urgente, porém generoso, que conspira contra toda a forma de controle, deram até uma chance para David Bowie resgatar o art-rock de sua carreira. Engano pensar em colaboração do camaleão. Trata-se de uma reverência a sua santidade pop de vanguarda.
5 Beirut - Gulag Orkestar
A Orquestra Gulag do “maestro” Zack Condon foi buscar nos Bálcãs o novo elemento para o indie americano. Dramática, integrante de sonoridades orientais e ocidentais, tranportadora de lamento e alegria, a música que se ouve aqui infecta a alma e chama a dança sem apelar para a tradição instrumental e melódica da música pop. Podem chamá-la de música moderna.
6 MV Bill - Falcão: O Bagulho é Doido
Excetuando um Mundo Livre s/a ali, um Tom Zé acolá, a ação musical de combate no Brasil se movimenta hoje é com o hip hop. Musical sim, não apenas de discurso. Assim, MV Bill, artista/ativista da Cidade de Deus do Rio de Janeiro consagra em seu novo álbum, Falcão - O Bagulho É Doido, o movimento cultural brasileiro surgido de baixo para cima. A música periférica. O Rap Popular Brasileiro tem afiados e afinados sons e batidas, somados a samba, funk, MPB e até jovem guarda. Transporta realidade, sangra com ela e reage para mudá-la.
7 Nomo – New Tones
Detroit, África. Lugar de refundação do Afrobeat. Parece delírio. Exagero. Mas o que não falta no grupo Nomo é a polivalência, poliritimia, multilinguagens musicais e ambiente multicultural que caracterizou o gênero musical africano surgido nos anos 70. Tudo isso está em New Tones, segundo álbum da banda. Desde o Afro Cuban de Dizzy Gillespie e das experimentações jazzísticas de Miles Davis e Sun Ra que os americanos não transcendiam para além do seu rock, jazz, funk, hip hop. Nomo realinha a produção musical da América para a militância destes que nos anos 60 proclamavam a origem africana das expressões musicais do país.
8 Daedelus - Denies The Days Demise
Para Daedelus o ofício de produtor merece ser revisado para “distorcedor”. O californiano nascido Weisberg-Robert, em seu quinto disco, fez com a tropicália o que DJ Shadow fez com o hip hop no consagrado Entroducing. Se a obra do sombra foi batizada trip hop, permito-me cunhar de eletro-tropicália o caldo deste The Days Demise: uma intervenção cirúrgica nos organismos mestiços do samba, bossa-nova, latinidades, trip hop e idm.
9 Girl Talk - Night Ripper
Girl Talk (Gregg Gillis) pode mandar no mundo dos mashups. Night Ripper, terceiro da carreira do DJ, é uma celebração do hit sem distinção de gênero e com todo o exagero possível. Literalmente, cabe tudo na batida hip-hop Oasis, Verve, Pixies, Paul McCartney, aquela do seriado The O.C., Public Enemy, Smokey Robinson, Elton John. Ufa! Foram 150 samplers. Uma parada de sucessos a serviço do groove!
10 Ali Farka Toure - Savane
O deus do blues africano deixou Savane ao atravessar sua última encruzilhada, em março deste ano, aos 67 anos. Dono de uma técnica ímpar de tocar guitarra, Ali Farka encarou as gravações do sucessor do soberbo In the Heart of the Moon, feito com o parceiro Toumani Diabaté, já sabendo do seu câncer. Como bom bluesman que foi, da dor tirou inspiração para criar um novo clássico do gênero. O slogan The King of the Desert Blues Singer estampado na capa de Savane é revelador da mensagem que perpassa as sobreposições de texturas, riffs e vocalizações do mantra-blues de Ali Farka Toure: a paternidade do blues à África.
+ 10 brasileiros
Mombojó – O Homem Espuma
Lucas Santtana - 3 Sessions in a Greenhouse
Rômulo Fróes - Cão
De Leve - Manifesto ½ 171
Eddie – Metropolitano
Bonsucesso Samba Clube – Tem Arte na Barbearia
Mamelo Sound System - Velha Guarda 22
Z’África Brasil - Tem Cor Age
Kassin + 2 - Futurismo
+ 10 gringos
Tom Waits - Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards
The Rapture - Pieces of The People We Love
The Dirty Dozen Brass Band - What’s Going On
Radio Citizen - Berlin Serengeti
Quantic - An Announcement to Answer
Ratatat – Classics
Hot Chip - The Warning
Liars - Drum is Not Dead
Beck - The Information
Comets on Fire - Avatar
10 melhrores shows
Gang Of Four no Campari Rock (Via Funchal - SP)
Patti Smith no Tim Festival Curitiba (Pedreira Paulo Leminski)
Tom Zé no Sesc Pinheiros - SP
Tortoise no Sesc Santana - SP
Nação Zumbi no Campari Rock - Atibaia/SP
New Order no Via Funchal - SP
La Popuña no Sesc Pompéia - SP
Brazilintime no Sesc Pompéia - SP
Eddie no Grazie a Dio - SP
Hurtmold no Coppola Music - SP
Hors concours: Rolling Stones em Copacabana
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