Saudade dá Frevo
Por Carlos Freitas em 24/12/2006 às 11:56 pm

Voltei. Foi a saudade que me trouxe pelo braço, como diz a letra do famoso frevo “Voltei Recife”, de Luiz Bandeira.
Deixa estar que sentir saudade é comum em tempos de festas de final de ano, época de felicidade e renovação de esperanças compulsórias. E para curar a melancolia, nada melhor do que a receita festiva do frevo, temperada a altas temperaturas, pra ferver mesmo, torrar o juízo!
O gênero musical centenário, amostra legítima da cultura popular brasileira, tem a propriedade de abordar a saudade, seja em verso, prosa, harmonia ou por meio de frenéticas evoluções musicais, sempre simpáticas ao improviso. Tudo extensivo a sua coreografia irreverente.
O recado é dado pelos mestres Nelson Ferreira e Aldemar Paiva, em “Frevo da Saudade”: “Quem tem saudade não está sozinho. Tem o carinho da recordação…”.
E assim o frevo faz. Coloca na sola do pé, de forma traquina, as mazelas do corpo e da mente. Irreverente, desafia o equilíbrio com seus passos que parecem tortos, herdados dos capoeiristas. Romântico, rege sonhos e amores impossíveis. Político, expressa resistência popular.
Nomes de clubes e dos passos dessa dança revelam essa relação de classe, principalmente com as dos trabalhadores. Sem o Vassourinhas, o Clube das Pás, Lenhadores, não existe carnaval em Pernambuco. E frevo que ferve é aquele dançado com os passos tesoura, parafuso, dobradiça.
O banzo, (palavra africana similar a saudade), certamente, tem seu ingrediente no caldeirão fervente de sonoridades populares do frevo. Algo que Tom Zé linka sem palavras nem sons convencionais em “Taka-tá - Revolta Banta” (confira o podouvir Bloco Anárquico dos Impopulares do Frevo - post acima).
Já para provar a tese do frevo ser fonte de resistência popular, reproduzo a fala da antropóloga Rita de Cássia Barbosa de Araújo, do Instituto de documentação da Fundação Joaquim Nabuco. Ela diz que “a origem do frevo está ligada às classes trabalhadoras urbanas e inclui, sobretudo, negros e mestiços que criam os Clubes Carnavalescos Pedestres e passam a ocupar o espaço urbano, antes dominado apenas pelos Clubes de Alegoria e Crítica, do qual participavam a elite intelectual e econômica de Pernambuco”.
E a ferveção continua quebrando os pés das convenções. Movimenta o frevo em direções nada ortodoxas, contradizendo detratores que defendem a falta de renovação do gênero. O problema é que estes o enxergam como expressão tradicional, “souvenir” do carnaval, dos “felizes carnavais de outrora”. Balela.
Para provar o contrário, Impop “funda” o Bloco Anárquico do Impopulares do Frevo, podcast que reúne músicas que evoluem a partir do andamentos alegro e conceitos do frevo. Para além do frevo de rua, frevo canção e frevo-de-bloco.
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