A Aldeia Global de Curumin

Por Carlos Freitas em 12/12/2006 às 1:21 am

Curumin: repercussão global do Achados e Perdidos Uma lembrança sintomática de 2006: durante o show do DJ Shadow no Tim Festival, em Curitiba, MC Lateef, convidado do “sombra” e um dos proseadores do californiano Blackalicius, referência do hip hop underground americano, prestou reverência a Curumin. Quem? Perguntou um fã dos Beastie Boys para um amigo. O desavisado MC, pensando em fazer uma média com os brasileiros, realçava as polivalências musicais do multiinstrumentista paulistano. O público, porém, não reagiu como Lateef esperava.

É, santo de casa não faz milagre. Mas ainda bem que o mundo não está surdo.

Esse ano, Curumin e sua banda, os Aipins, colocaram os EUA para dançar. Só no sapatinho, foram mais de vinte cidades visitadas. Excursões que renderam a venda de 15 mil cópias de Achados e Perdidos, disco de estréia, lançado no Brasil pela Y! Brasil, em 2003, e nos EUA, ano passado, pela gravadora Quannum, casa fonográfica do DJ Shadow, Blackalicious, entre outros cientistas dos grooves.

Com a benção de Tim Maia, Jorge Ben e Mutantes, o samba desse gringo paulista, de descendência espanhola e japonesa, tem cores psicodélicas e chacoalha com dub, funk, afrobeat e pop. Uma ginga que rompe fronteiras geográficas e revisa a tradição local do gênero para pop, global.

Assim, Curumin, baterista de pulso que não dispensa um cavaco, sampler e outras maravilhas digitais, confirma o papel de vanguarda do Brasil na música pop global. Sem o estrondo do CSS, é certo, mas com a força da autenticidade mestiça do seu samba japa.

Curumin bateu um papo com Impop. Falou da carreira, cena nacional, sobre ser músico no Brasil e fez segredo sobre o novo disco, “Japan Pop Show”.

Só mais uma vez, conta como surgiu o contato com a Quannum e aproveita para fazer uma avaliação dessa experiência de lançar um disco por uma gravadora gringa.
Em 2004, rolou o festival Hip Hop Indie, em Sto André, com o Blackalicious. O Lenza, que produziu o disco Achados e Perdidos, fez o som da parada e deu um disquinho para os caras. Eles piraram e o XCel falou que trabalharíamos juntos. Depois de um ano eu abri o site da Quannum e me vi lá. Caiu a ficha.

E a repercussão de Achados e Perdidos? Foi maior no exterior?
Faz quase um ano que o disco foi lançado lá fora e tem sido muito bom. Primeiro porque a galera da Quannum botou a maior pilha e fez um trabalho de divulgação impressionante. Tem matérias e críticas muito boas sobre o disco. Segundo que fiz quatro excursões internacionais, três para os EUA e uma para a Europa. Fiz mais shows nos EUA do que aqui em São Paulo, que é onde mais toco no Brasil. E por fim, depois que começou essa parada de disco na gringa, rolaram mais shows, várias matérias, a galera começou ficar mais curiosa. O que rolou aqui foi mais em função da repercussão que rolou lá fora. Mas é engraçado: lá o som é exótico, aqui é santo de casa.

Você acha que o meio independente ruma para auto-suficiência no Brasil?
Sem dúvida, o meio independente conquistou um espaço, um público, lugares para tocar, meios de comunicação. Só não conquistou uma rádio. Mas ainda rola pouca grana e não vejo horizonte nesse sentido. O mercado é restrito. Sempre tem alguns que se destacam mais, mas as coisas mais experimentais não tem auto-suficiência não. Talvez mais pra frente. Como diz o Tom Zé, lenta luta.

É notável na sua música uma influência dos anos 70, apesar de você instrumentar o samba com outras linguagens, análogas, digitais e contemporâneas. Com esse atual revival tropicalista, em razão do retorno dos Mutantes, você não teme que seu trabalho seja identificado retrô?
A maior parte dos sons que eu escuto são antigos, dos 60 e 70. É uma grande referência. Faço um grande esforço para soar como antigamente, aquele som mais vivo, mais quente, muita experimentação, hippão, saca? Nesse sentido, não temo soar retrô, pelo contrário, acho classe. Mas com uma linguagem própria, né? Não tem como não soar diferente. Não tem como gravar um disco sem usar e aproveitar as possibilidades do computador.

Quais novas bandas nacionais você tocaria se fosse DJ de festa da sua tribo?
Cidadão Instigado, Céu, Junio Barreto, Lucas Santanna, Instituto, Jumbo Eletro, Dona Zica, Guizado, Takara, Yellow P, Rubinho Força Bruta, Pra Mateus, Wado, Eddie, Bonsucesso, China, Monjolo, Bangalafumenga, BNegão, TurboTrio e por aí vai. Mas é engraçado que essa parada de independente é mais regional mesmo. Conheço mais bandas do Rio, SP e PE.

Você tem um lado de músico profissional. Acompanha Arnaldo Antunes, Alzira Espíndola, Romulo Fróes, Abujanrra, Bojo, Guizado. Até onde vai o prazer de produzir e o de sobreviver como músico?
Na mosca. É dificil pra caramba. Tem que ralar pra se garantir. Eu ainda trampo numa escola de arte, porque gosto e preciso. Acho que todos esses citados, os independentes, precisam de outros trampos para segurar a onda. E é engraçado que às vezes você cansa de tocar. O que é uma coisa muito prazerosa fica cansativa, uma obrigação. Ensaiar, por exemplo, é muito classe. Ainda mais quando você está criando coisas novas e tal. Mas depois que você trabalhou a semana inteira, ralou pra caramba, chega no ensaio cansado, não consegue produzir e fica estressado. Sei lá, essa é uma pergunta que eu me faço o tempo inteiro.

Teremos DJ Shadow ou Blacklacious e cia ilimitada integrando Curumin & Os Aipins no próximo disco? Conta como rolou a interação com as feras.
Cara, guardando as devidas proporções, a Quannum é uma gravadora independente também. O escritório deles deve ser do tamanho do meu quarto. Os caras lá são muito na boa, simples, e receberam a gente muito bem. Tivemos uma interação musical bem bacana com o Tommy Guerrero e o Herve, do General Eletrics, e HoneyCut. Não sei ainda quem é que vai participar do próximo disco, mas que é muito classe poder fazer um som com os caras lá isso é.

Ainda sobre o próximo disco: já tem uma direção, data prevista? Sai aqui e no exterior?
Estamos começando ainda, mas acho que já tem uma onda, uma direção, como você disse. Mas não vou adiantar essa ainda porque pode mudar. Mas tá diferente. Devemos lançar no começo do ano que vem, mas não sei quando. Na gringa, eu ainda não sei, mas aqui sai com certeza. É noise!

Ouça Curumin & The Aipins aqui: www.myspace.com/curumin

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