Gang of Four no Brasil: contradizendo Marx

Por Carlos Freitas em 17/8/2006 às 3:05 pm

Ao anúncio do show do Gang of Four em São Paulo (dia 6/9), confesso que reagi com um entusiasmo que nunca tive com bandas que resolvem voltar às atividades após anos de sumiço.

Mas bastou lembrar de uma velha máxima marxista que passei a temer a volta dos vermelhos de Leeds.

“A história não se repete. Na primeira vez aparece como tragédia, e, na segunda, como farsa”.

Apoiei-me então na crença das críticas que vem do lado de lá do atlântico. Pelo que dizem, o Gang of Four deve estar causando arrepios nos bem comportados Franz Ferdinand, Rapture, Radio 4, herdeiros da forma musical, mas não de seu conteúdo e postura subversiva. Nem de longe.

O Gang of Four fez do confronto a política de sua música. Ancorado nas teses marxistas, transformou tudo o que era sólido no punk numa peculiar evolução do rock que veio a ser batizada de pós-punk. Há quem atribua o título ao PIL. Pouco importa se o contexto revolucionário é o mesmo.

Logo em seu disco de estréia, Entertainment, lançado em 1979, o Gang of Four mostrou-se engajado com o propósito de revolucionar. Em termos artísticos, eram legítimos dadaístas, avessos a padronizações. O punk que existia nas cabeças de Andy Gill (guitarras), Jon King (vocal), Dave Allen (baixo), Sarah Lee (baixo – após Allen) e Hugo Burnham (bateria) era o anti-punk.

Ritmos fraturados. Guitarras feitas de blues e ruídos. Lógica do experimentalismo ditando os compassos do rock, funk, dub, reggae através dos quatro caminhos distintos que cada músico impunha e a receita capitalista rasgada a cada verso gritado por John King e Andy Gill. No wave, punk, pós-punk, vanguarda? Não: Gang of Four.

A estratégia da guerrilha do Gang of Four foi simples e eficaz: colocar a massa para dançar e cantar sobre seu dia-a-dia oprimido pelas motivações do consumo através de impossíveis combinações de sons e letras. A diversão era o poder da mudança.

Quarta-feira, 06 de setembro de 2006, que me perdoe mestre Marx, vou me sentir confortável em lhe contradizer. Que a história se repita!

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Comentários

One Response to “Gang of Four no Brasil: contradizendo Marx”

  1. pedro keppler on September 8th, 2006 2:22 pm

    acho que o fato do gang of four ter se transformado num produto (o que eles não fizeram APÓS a volta - em 1979 eles já haviam sido lançados pela EMI e pela Warner) não afeta a postura esquerdista.

    Para dizer a verdade, isso dá mais força ainda para as idéias deles. Eles sabem que o entretenimento é uma indústria. Nesse sentido, eles colocaram o produto deles numa orientação política e não deixaram de se manifestar.

    Marx também vende livros. Noam Chomsky também. Vários escritores esquerdistas publicam livros em editoras e isso não transforma eles em “farsa”.

    Talvez eles se transformem em farsa justamente porque as pessoas tendem a ver “O” Gang of Four, e não a música deles. Trocam produto por marca.

Tem algo a dizer?