O lamento do Primal Scream
Por Carlos Freitas em 21/6/2006 às 10:19 pm

O grito de gol pode ser encarado como um grito primal. Algo terapêutico que a banda Primal Scream realmente promove no popspace. Não é só por isso que os convoco para um bate-bola no Impop, nestes tempos de Copa de Mundo. O que motiva o chamado do time de Mr. Scream, Bob Gillespie, é Riot City Blues, seu novo álbum.
Frustrante como um gol contra. É como imaginar o Primal Scream como um hooligan, tamanha a truculência do ataque que fizeram ao seu público acostumado com o excesso de talento e golpes contraculturais aplicados em boa parte da discografia da banda.
Ouvindo este oitavo disco, deu saudade de despejar dos confins da consciência algo como:
É chegada hora de ligar todos os pedais de efeitos, acionar todos os botões, samplers, seqüenciadores; conectar-se com tudo que está ao seu redor. Ouvir todas as músicas que quiser ao mesmo tempo. Dançar, tocar, fazer barulho! Só assim estaremos preparados para a sessão da terapêutica que o Primal Scream propõe em seu mais recente tratado de música pop contemporânea.
Assim descrevo as sensações dos sons do álbum XTRMNTR, lançado em 2000, e das rupturas dos grooves psicodélicos do Screamadelica, clássico do Primal Scream lançado em 1991. Ambos compõem movimentos de aproximação de décadas através de novas linguagens. Não de revivalismos reverentes e acomodados, comuns no mundo dos Wolfmothers da vida, como o que se ouve neste Riot City Blues.
Do barulho e melodia da época de Bob Gillespie como baterista do Jesus & Mary Chain e dos Sonic Flower Groove (87) e Primal Scream (89) ao ritmo e psicodelia do Screamadelica, as guitarras sempre rangeram com a voz de Bob Gillespie discursando sobre o poder das tabelinhas das vanguardas do rock com dub, da eletrônica com funk, do punk com jazz.
Mas parece que o time de Bob Gillespie sofre de um algum mal depressivo, um bloqueio criativo. Adaptando O Medo do goleiro diante do Pênalti, filme do Win Wenders dos velhos e bons tempos, seria o medo do time do Primal Scream diante das vitórias.
O pós-Screamadelica foi traumatizado pela substituição dos Stooges e MC5 das referências inspiradoras do revivalista Give Out But Don’t Give Up (94), apesar de todo o esforço funky da produção de George Clinton. Como aconteceu naquela época, o Primal Scream voltou a soar como uma tentativa do Black Crowes de imitar os Stones.
Até que durante os seis anos do pós-XTRMNTR o Primal Scream continuou com time ousado nas experimentações das possibilidades eletrosônicas do crossover space/acid rock com dub e funk no disco Evil Heat. Mas o Riot City Blues veio para calar o grito inquieto do Primal Scream.
Os reforços de peso Will Sergeant (Echo And The Bunnymen) em When The Drops Bombs, Warren Ellis (Nick Cave & Bad Seeds e Dirty Three) em Hell’s Coming Down e dos vocais de Alison Mosshart do The Kills não conseguiram livrar o blues-rock dos clichês que só fazem sentido se para qualificar o blues como um lamento mesmo.
Selecionei alguns confrontos do time de músicas titulares contra as reservas do Primal Scream, para dar sons às idéias do post.
Podouvir
Miss Lucifer (Evil Heat) x Country Girl
Loaded (Screamadelica) x Nitty Gritty
Accelerator (XTRMNTR) x Suicide Sally & Johnny Guitar
Kill All Hippies (XTRMNTR) x When the Bomb Drops
Lord is my shotgun (Evil Heat) x Little death
Higher Than The Sun (Screamadelica) x The 99th floor
Moving On Up (Screamadelica) x Boogie Disease
Para fechar, Swastika eyes [jagz kooner mix] (XTRMNTR)
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