V de Vingança

Por Carlos Freitas em 25/5/2006 às 9:07 pm

Não resisti e resolvi inaugurar uma arriscada categoria sobre impressões cinematográficas. Mais arriscado ainda foi abordar um filme adaptado de uma HQ que não li (estou lendo - alô Angelos e Marcela!). Mas só valeu a pena tê-lo assistido durante este período de insegurança pública que desmascarou toda a pose de administradores austeros assumida pelos governantes paulistanos, crias legítimas da falência neoliberal.

Para alimentar a polêmica sobre o terror como forma de protesto, Impop projeta V de Vingança. A versão cinematográfica da clássica graphic-novel de Alan Moore e David Loyd, em exibição nas telas do país, elege o confronto como linguagem e argumento. Terrorismo como arma de combate ao fascismo. Violência como meio de libertação. Vingança como combustível da vida. Aspas e senões caberiam aqui, mas a similaridade com os dias de hoje não é mera coincidência.

Apesar da abordagem futurista, o ambiente do filme projeta uma metáfora à realidade. Um mundo dominado pela mídia e pelo poder político que se abstêm de seus méritos: respectivamente, informar e agir para o bem comum.

Os Wachowski encontraram em V de Vingança a ponta perdida na continuação de Matrix. Juntos ao diretor James McTeigue, conseguiram compor uma alegoria distópica da política. As imagens de V de Vingança emolduram a ilusão da realidade política destes tempos, da democracia sustentada pela desigualdade e massificação. Totalitarismo disfarçado, o famoso consenso neoliberal.

Em V de Vingança, a múltipla falência de poder, pela sua ferrugem e descaracterização, é motivo de crítica e sugestão da anarquia como modelo. São fartas as cenas que criam circunstâncias para sugerir como criminosos e autoridades políticas se confundem. Se a ordem legal é criminosa, por violar o direito natural, quem seria o agressor num meio viciado em corrupção, manipulação e abuso de poder? Lembrou-me o livro Caos - Terrorismo Poético e outros Crimes Exemplares, de Hakim Bey, o “profeta do caos”.

V é um terrorista poético. Fala através de Shakeaspeare. Crê na revolução pela arte, por expressar idéias, maior patrimônio da humanidade. Por isso se sente violentado pela força intrusiva do poder autoritário que dissemina o vazio ideológico. O terrorismo, então, se estabelece como subversão da idéia de quem agride; às leis que sustentam a opressão do estado, afagam a livre manipulação dos fatos à serviço da manutenção do status de poder.

V, o personagem mascarado elemento central da trama, é um terrorista? Um herói às avessas? Seria o povo? A resposta é a vingança. No filme, quando do desmascaramento de todos ao som da Abertura 1812, de Tchaikovsky, (escrita para celebrar a vitória dos russos contra as tropas napoleônicas) na cena do ataque multicolorido com fogos de artifício ao parlamento de Londres. É como se estivessem se libertando do confisco das culturas, ideais e diferenças que nutrem a sociedade. Um confronto que arranca a liberdade ilusória da cara do regime massificador.

A ação de luta marginal é ponto de intersecção entre o filme e a realidade. V de Vingança o promove revelando as tiranias do totalitarismo, seja num regime fascista ou num democrático. E faz uma ode a revolução das massas contra a dominação política das idéias e ao combate ao fascismo: ” O governo é que deverá ter medo do povo”.

O filme V de Vingança se aproxima das fronteiras entre o comercial e o artístico. Não figurará nas prateleiras dos cult-movies. Como adaptação, mantêm-se na linha tênue da discussão estética entre os fãs da HQ e os fãs da versão cinematográfica. Partindo para a trilha sonora, algumas ausências podem, merecidamente, aumentar a temperatura das discussões. Ficaram de fora da trilha oficial Street Fighting Man, dos Rolling Stones, e Out of Sight, do Spiritualized. Mesmo só sendo executadas durante os créditos no filme, tornariam o álbum mais integrado com a proposta subversiva da produção.

Enfim, como obra visual-sonora-conceitual, V de Vingança é uma fábula político-sociológica sobre a luta do homem pela sua liberdade.

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