Bob burnin’
Por Carlos Freitas em 11/5/2006 às 8:47 pm

Celebração, em geral, não parece ser a palavra ideal para representar um aniversário de morte. Mas nesse 11 de maio o mundo (im)pop celebra sim a data, em nome da carreira de Bob Marley. Uma memória revolucionária.
Bob morreu prematuramente aos 36 anos, vítima de câncer, em Miami. Com sua obra plantou sementes de uma revolução musical a partir de uma poética de conteúdo social libertador, pan-africanismo e do reggae. Colocou a Jamaica no mapa da música mundial com identidade soberana, força cultural e contestação social.
Para fugir do lugar comum e com isso ficar alinhado com o ideal de Bob Marley, achei melhor celebrar a data imaginando o que ele estaria fazendo hoje e como se relacionaria com o seu legado. A sua obra está na praça, nos cantos do mundo carburada, dissecada e repercutida através de biografias e relançamentos. Aconselho Queimando Tudo, livro do jornalista americano Timothy White, a coletânea Natural Mystic – The Legend lives On e a caixa de CDs Songs of Freedom. Sim, claro, a discografia inteira só vale a pena. O nível alto prevaleceu nos dezesseis discos oficiais que lançou com a The Wailers.
É possível que Bob Marley aprovasse o álbum Chant Down Babylon, lançado em 99, com vocais originais de suas canções remixados e aditivados de participações de fãs como Lauryn Hill, dos Fugees, e do hip hopper Busta Rhymes. Mas aposto que seria com as experiências processadas em suas músicas por Bill Laswell no CD Dreams of Freedom, lançado em 97, que se sentiria mais a vontade. O disco expressa, usando o dub como linguagem, a obsessão de Bob Marley em explorar as possibilidades rítmicas entre a bateria e o baixo. Drum ‘n’ bass, tá ligado? O poderoso gênero da vanguarda da música eletrônica é cria legítima do dub jamaicano difundido pelo mundo através das parcerias de Bob Marley com Lee Perry. Duppy Conqueror, Small Axe, Soul Rebel, Nice Time são algumas pepitas derivadas das idéias dos “pais” do reggae e do dub.
Como Bob Marley era pirado por instrumentos de percussão (quando esteve no Brasil em 1980, adquiriu atabaques, cuícas, ilús etc) e declarou na revista Beat que o reggae e o Samba eram irmãos de sangue, é bem provável que também experimentasse o jeito brasileiro de fundir ritmos e sonoridades descendentes da áfrica com os sons do mundo. Estaria atrás de um soundsystem de Belém? Ou confabulando com a Nação Zumbi? Não duvido.
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