DRM está matando a música
Por Carlos Freitas em 29/4/2006 às 7:32 pm
Home Taping is Killing Music. Uma pesquisa sobre copyright me fez esbarrar nesse caquético slogan criado para uma campanha de combate a pirataria fomentada pela indústria fonográfica inglesa. O slogan e o logo impressos em capas de discos nos anos 80 nasceram condenados a paródia. Afinal, incentivavam o contrário. Basta imaginar o que aconteceria se se todos parassem de gravar músicas em fitas cassete: a morte da indústria musical.
Antes de ter comprado o meu primeiro disco, “Sticky Fingers”, dos Rolling Stones, já tinha sido iniciado em um monte de sons através de gentis gravações em fitas cassete. Lembro com tanto carinho da minha coleção de fitinhas que não teria como me sentir um fora da lei por tê-las. Aquela caixa de sapatos cheia de fitas e repleta de fotos do The Clash, Jimi Hendrix, Bob Marley era um verdadeiro baú do tesouro.
As fitas cassete me levaram a manipular, gravar e compartilhar sons de Patti Smith, Television, Lou Reed, raríssimos nas lojas de discos da época, e assim enriquecer meu vocabulário musical e círculo de amizades. Para causar efeito com as garotas, então, as fitinhas eram perfeitas. Sim, gravar era uma diversão à parte, assim como o é baixar MP3.
Tinha todo um aparato: limpar os cabeçotes do gravador, retroceder a fita ou encontrar o ponto certo para “colar” a próxima música, selecionar, inverter a ordem original dos LPs, fazer a capinha. Sem falar na importância das demotapes para as novas bandas. Participei de várias. A mais marcante foi com o Mundo Livre S/A: uma espécie mashup de Fio Maravilha, de Jorge Ben, com Bigmouth Strikes Again, dos Smiths.
A fita cassete não matava. Difundia músicas. Assim como ocorre com o MP3 e os CDrs. Inibir a difusão de músicas é que é uma ação destrutiva. Mas aí é a velha cantilhena de sempre: tudo o que está à margem do lucro deve ser caçado, punido. O mundo vive a crise da legalidade.
Para sustentar o modelo ultrapassado de negócios musicais, um sistema que só protege lucros, pune consumidores e desestimula artistas, as corporações do entretenimento continuam investindo em campanhas bizarras. Não faz muito tempo, a RIAA ressuscitou dos tempos da guerra fria o “fantasma” do comunismo para “assombrar” os que baixavam musicas pela internet com a campanha when you´re pirate mp3s you´re downloading comunism. Em suma: a maioria dos americanos é comunista e não sabia! E tome download dos livros do Karl Marx!
As propagandas equivocadas refletem o pensamento da indústria do entretenimento. O tiro que saiu pela culatra e se desdobra em irreverentes campanhas de resistência que atualizam a crítica ao jogo sujo das gravadoras. Como o logo que parodia o DRM, código malicioso embutido em alguns cds que inibe a cópia de músicas, inclusive para mp3 players e CDrs. É mais um revide que cabe a nós consumidores de música repercutir.
DRM is Killing Music. And it´s a Rip Off

Outro troco digno de citação foi o que o site de torrents Pirate Bay tratou de dar: usou o logo da campanha contra a fita cassete na embarcação pirata que o representa. Dá uma olhada.

MP3, blogs, P2Ps, editores de áudio, vídeos e imagens, nada mais são do que fruto da militância da humanidade em prol do direito de escolha e da liberdade autoral. Podemos ouvir, compor, divulgar, compartilhar as músicas que queremos do jeito que desejamos. Assumindo o tom panfletário, não receio dizer que o preço que a sociedade paga às corporações, em geral, já é muito alto.
Sobre o tal DRM, anda repercutindo bastante mal a aplicação do maléfico no novo cd da Marisa Monte, o qual não tenho a mínima vontade de tê-lo e muito menos de ouvi-lo. Serve de alimento para a militância contra as estratégias de comercialização que limitam o uso dos “produtos musicais”. Empunho a bandeira anti-DRM.
Para aumentar o poder de fogo da polêmica convido ao Impop Etienne de Crécy. O DJ trouxe a polêmica dos P2Ps para a new wave do techno francês em forma de homenagem. O álbum Etienne De Crécy Présente Super Discount Vol 2 desfila um crossover de house, electro e techno com forte influência de Giorgio Moroder em músicas com nomes de P2Ps: Bit Torrent, Grokster, Morpheus, Audiogalaxy, Limewire. Escolhi Soulseek para compartilhar. É a melhor do disco, que conta com a presença de Alex Gopher (esteve com Etienne no Motomix 2005) e outros djs/produtores em algumas faixas. O álbum prosseguiu o efeito revolucionário da primeira edição lançada em 1998, numa Paris incendiada por uma cena que suava no clube Respect e revelava o Air, Daft Punk, De Crécy entre outros.
E para politizar a história toda, a Internationale, com Moscou Radio Chorus.
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