Quem precisa de ordem?

Por Carlos Freitas em 30/3/2006 às 9:22 pm

31 de março de 1964, uma data que não dá para esquecer. Passados 42 anos do golpe militar que nos roubou a democracia por duros 20 anos, o pesadelo autoritário ainda paira no Brasil, especificamente sobre a classe dos músicos, que travam uma nova luta de classes.

O legal é o ilegal! Essa é a tônica destes tempos de viradas históricas no meio musical. Autoria, músicas, softwares, o mundo é livre, compartilhado, informal. No contexto do confronto, não vou tratar sobre as iniciativas da decadente indústria fonográfica de criminalização daqueles que compartilham músicas pela internet, mas sim da criminalização dos músicos por parte da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil).

Enferrujada por burocracia, abuso de poder e processos de ética duvidosa, a OMB estabeleceu uma habilitação obrigatória para quem quer viver de música. Ela se dá através de uma avaliação que tira do aplauso do público o julgamento do artista.

Mesmo sabendo que inspiração não nasce apenas em universidades e conservatórios de música, novos compositores, músicos, não-músicos, djs, artistas populares, precisam se submeter à aprovação no teste se quiserem trabalhar dentro dos “conformes da lei”. Como a reprovação é inevitável, devido a exigência de habilidades mais apropriadas a musicos líricos, a OMB dá uma chance à “legalidade”. Para isso, vendem uma habilitação de amador, provisória, renovada de tempos em tempos. Tudo pago, é claro.

E o direito de chancelar quem é e quem não é músico é garantido por lei à OMB. Não satisfeita, ainda abusa da lei para punir, com cassação da carteira de músico, quem discorda e contesta abusos como o sistema de eleições da instituição que elege há 40 anos Wilson Sandoli como Presidente Federal da OMB.

É um trabalho infinito pensar na lista de grandes artistas “ilegais”. Será que os caras da Nação Zumbi precisam de teste? E as três ceguinhas do documentário A Pessoa é Para o Que Nasce, não são artistas musicais? DJ Marky não pode ser músico porque não existe exame de mixagem na OMB? E o que seria das cirandas da Lia de Itamaracá? Ainda bem que a música está acima da lei!

De todo o jeito, uma ação mais organizada por parte da classe musical é necessária. O show “Fora de Ordem”, realizado na Lapa, Rio de Janeiro, segunda-feira passada, já mostra que o coro que clama pela derrubada deste poder tirano da OMB começa a ficar afinado.

Para ler, refletir e até cantar, algumas sugestões:

A matéria A Ordem Ameaçada, do jornalista Pedro Alexandre Sanches, que trata sobre o comando ditatorial da OMB e o início da rebelião da classe musical.

O músico-produtor Chico Correa revela uma saída regional na Paraíba com uma nova ordem.

Para baixar, ouvir e cantar, a fábula que o Mundo Livre s/a canta em Muito Obrigado, do CD O Outro Mundo de Manuela Rosário, cuja moral é: “em terra de urubus diplomados não se houve o canto dos sabiás”. E Zero Quatro completa: “Quem precisa de ordem pra inventar?/ Gonzagão, Morangueira, precisa o quê?/ Dona Selma, Adoniram, precisa não/ Chico Science, Armstrong, precisa o quê?/ Dona Ivone, Dorival, precisa não”.

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Comentários

3 Responses to “Quem precisa de ordem?”

  1. Jorge Roberto on August 27th, 2008 1:24 pm

    Apenas uma observação: DJ não é músico amigo! Pic-up não é instrumento musical. Vamos respeitar conceitos e parar de relativizar. Pra ser músico tem que se estudar música sim, tem que saber algo sobre teoria sim e tem que aplicar isso a um instrumento de cordas, percussão ou sopro. Inventar qualquer coisa pra justificar incompetencias não é o caminho.

  2. Carlos Freitas on August 27th, 2008 2:02 pm

    O que é mais legal disso tudo é que a música feita por quem independe de diploma para fazê-la continua a ser difundida, a se manifestar e ganhar cada vez mais novas e independentes formas de expressão. Se DJ, produtor, repentista, percussionistas tribais não são considerados músicos do ponto de vista formal, isso pouco importa, desde que ele tenha desenvolvido habilidade suficiente para se expressar, interagir e levar as pessoas a fazerem o mesmo.

  3. Paulo Diógenes on September 4th, 2008 10:23 pm

    Que opnião mais conservadora, Jorge Roberto. Realmente, DJ´s que simplesmente apertam o play naum podem ser considerados músicos. Mas daí a generalizar. E o que dizer de mestres como DJ Shadow???? E obras-primas como Endtroducing, naum eh música boa o bastante pra vc????? Teu comentário infeliz me fez lembrar de uma declaração do Lúcio Maia, da Nação Zumbi, quando disse em uma entrevista que um dos caras do Instituto não sabia nem afinar um violão, contudo, era muito mais músico que muito neguinho piolho de conservatório….

Tem algo a dizer?